Viagem a Marte: Suicídio ou progresso?


 

Nestes dias tão coléricos e melancólicos, não faz sentido contar piadas. Nem lê-las, naquelas revistinhas baratas que ninguém compra. É que agora todo mundo é sério. Os papos são interessantes e a raiva, decepção, choro e ranger de dentes são notórios em cada esquina. Aquele tempo de felicidade foi embora e a saudade no meu peito é imensa, mas isso também é coisa miúda nestes dias tão coléricos.

Já é do conhecimento de muita gente o projeto “Mars One”, que consiste em uma viagem só de ida para o planeta Marte. Nada de novo. Ir ao espaço? Normal. Viagens tripuladas? Também não foge do normal. Sempre há alguém pendurado por aí afora apertando alguma porca solta (não é o bandido do Chapolin) ou conectando cabos que falham como qualquer cabo que um dia sempre falha.

Até o momento, mais de 100 mil pessoas já se inscreveram para fazer parte da tripulação. Destas, 80% o fizeram só pra dizer em casa que estão entre os inscritos. Na hora da verdade, todos correm. Eu também correria. Este tempo de apatia e revolução, seriedade e sarcasmo, não é propício para novos Colombos. O homem é outro. Não é mais medieval. Mentira. É sim. Nada faz diferença. Somos violentos tanto quanto os vikings, sebosos como visigodos e chatos como os galegos. Mundo não consiste em planeta. Pessoas também são mundos particulares. Talvez seja até mais fácil fincar uma bandeira da ONU em solo marciano do que colonizar corações alheios.

Quando Pinta, Santa Maria e Nina zarparam da costa europeia rumo às índias, os tripulantes não tinham a mínima noção de que não voltariam para casa. Os aventureiros, inexperientes em sua maioria ou os degradados enteados de Eva embarcavam em naus com um sonho: Sobreviver para enriquecer com os tesouros do oriente. Ninguém tinha o objetivo de colonizar ou catequizar ou analisar as geologias de possíveis solos estranhos. Entretanto tudo isso aconteceu, com o tempo.

Antes de escrever este texto, enquanto lia a respeito desta missão marciana que está quase às portas (a primeira tripulação decola em abril de 2022) senti uma profunda indignação pelas pessoas que realmente querem morar no planeta vermelho. Minha primeira sensação foi: Isso é um suicídio mascarado. Não é não. Prefiro ver um amigo morando em Marte do que vê-lo gelado num féretro por ter tirado a própria vida.

Os caras que saíam nestas expedições no período das grandes navegações iriam fazer a mesma coisa. Só não sabiam. Eis a diferença! Dos 300 que embarcavam numa tripulação pelo Atlântico no século XVI talvez só 15 voltavam pra casa muitos anos depois. Claro que existem fatores antropológicos, sociológicos e psicológicos. Os marujos pensavam diferente há 500 anos. A vida tinha outro valor. Os sonhos. A fé. A ciência. Tudo era diferente. E também muito igual. Contraditório ?

Só não dá pra se arrepender depois de chegar ao outro planeta. Porém, os caras que pisaram nas areias de Porto Seguro em 22 de abril de 1500 também não poderiam voltar. Pelo menos a maioria não podia. Não por falta de transporte. Não existiam aviões mas haviam embarcações. Não havia dinheiro e a palavra do El Rei valia mais. Valia muito. Em Marte não existe rei. Não existe transporte. Nem nada. Só a vida. E a vida já é muita coisa.

Ouvi muitas pessoas comentando sobre o assunto. A maioria é contra. Acham que 14 bilhões de reais destinados a um projeto com este fim é como queimar dinheiro. “Tanta gente passando fome na África e ninguém faz nada!”. Discurso um tanto hipócrita. Quantos reais você tira do seu salário e envia para a África todo mês? E se você tivesse 14 bilhões de reais na conta? Quantos bilhões enviaria para a Nigéria ou para as pequeninas cidades nordestinas, que padecem com a seca e são invisíveis para o governo brasileiro? É fácil ser herói sentado no sofá.

Bem, eu não sou um dos 100 mil inscritos. Estou bem, aqui na Terra. Boa sorte aos 24 corajosos que irão. Ah, quase esqueci de falar. Haverá uma triagem para escolher estas 24 pessoas dentre as milhares que se inscreveram e que ainda irão se inscrever até o final deste mês. Ou seja, se você se acha capaz, ainda dá tempo. O idealizador do projeto quer fazer de tudo isso um reality show. Já era de se esperar.

Com certeza os marujos de Cabral gostariam de enviar um SMS para os familiares lusitanos: “Mãe, cheguei numa terra muito legal. Muita gente pelada. Sol, calor, frutas açucaradas e um visual incrível. Queria que vocês estivessem aqui. Quem sabe no próximo voo aquático!”. Os terráqueos (em Marte) poderão fazer isso e muito mais. Mensagens de vídeo com um atraso de 7 minutos. Porém, o que são 7 minutos? Pior eram os degradados que escreviam mensagens de natal em Julho e enviavam do Brasil para a Europa com a esperança de que estes papéis chegassem no endereço certo em Dezembro daquele mesmo ano.

Uma canção do Lulu Santos resume tudo isso. Tempos modernos! Os tradicionalistas do Velho Mundo criticavam os exploradores que cruzavam estes mares desconhecidos onde a qualquer momento um leviatã poderia despedaçar as frágeis fragatas. Se eles não viessem eu não estaria aqui. Não querer ir é uma opção. Impedir a ida de outros é uma imposição. Coisas mais graves acontecem no dia a dia e não são impedidas. Vamos viver tudo que há pra viver. Vamos nos permitir.

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