E depois das manifestações vem a calmaria.


 

Morei a maior parte da minha vida numa rua chamada Antônio Pereira dos Santos. Esta rua, antes de ser antoniana, chamava-se 29 de Agosto, em alusão ao aniversário da cidade (Camacã/BA) que já foi 29 de Agosto, data atualmente alterada para 31 de Agosto. Michael Jackson se estivesse vivo, completaria hoje 55 anos. Datas e nomes. Pessoas e cidades. Final de Agosto.

De todos os meses do ano, Agosto é o mais estranho. Fica bem no meio. Não é uma palavra bonita de ser lida. E o A de Agosto dá a ideia de negação como anormal, acéfalo, agosto. Sem gosto. E Agosto vem de Augustus, o imperador. Agosto, então, deveria ser um mês de Natal. Sublime. Mas o Natal fica em Dezembro, o que dá a ideia de dez, mas é doze.

Bem, Agosto chega ao fim e Setembro espreita. E quem espreita, gosta de observar. Só pra ver o que acontece ali na esquina, ali na rua, no fim do mês, no final das contas. Há dois meses eu escrevi sobre as manifestações da juventude nas ruas do Brasil. Na ocasião, afirmei que “quando entrasse setembro, qual seria o saldo de tudo isso?”. E agora me pergunto: Qual o saldo de tudo isso?

Sim, votaram em alguns projetos parados. Sim, diminuíram o valor das passagens do transporte público ou quase isso. Mas, não sei. Ficou um gosto amargo na boca, de remédio ruim. Um cheiro de caso mal resolvido. De fim de festa. De banheiro químico. De fogo morto, ou de palha.

Atualmente os médicos estrangeiros tomam as capas dos jornais. Ou o Ministério Público. Ou os mensaleiros soltos. Ou a Fazenda. A mega cobertura, os helicópteros, as passeatas, os dois milhões numa avenida… Serão artigos dos próximos livros didáticos. Como foi a primavera árabe ou o furacão Katrina, que por sinal, ocorreu no dia 29 de Agosto.

Meu avô chamava a minha rua, 29 de Agosto, hoje Antonio Pereira dos Santos, de Rua do Tapa. Dizia isso porque no passado era um tanto violenta. Os transeuntes poderiam levar um “tapa” a qualquer momento. Rua do Tapa! Poderia ser chamada assim até hoje. Meu avô ainda chama.

Bem, Agosto diz adeus de novo, mas ninguém sentirá sua falta. Eu não sentirei. Idiotice ficar me policiando por nomes e datas e meses e anos e códigos, mas sou assim. Só queria dizer em poucas palavras que o tempo está passando e Maquiavel foi para o lixo. Os fins não justificam os meios por aqui. Veio a tempestade. Lavou a rua. Mas a rua já está cheia de terra de novo. Muitos cavalos batendo os pés no chão. Burros de carga transportando desilusões e alguns homens que só são homens.

Posso ser um grande cego. E daí? Que bom que a maioria vê saldo no vácuo. Também queria enxergar o início da jornada. O bocejar do Brasil, que acordou. Porque no fundo eu sou desses, que ficam de longe olhando a banda passar. Logo, não estou no meio da massa. Não sou herói. Nem quero ser. Porque todos os jovens são heróis. Menos eu. Sou a vítima que escreve socorro num papel, enrola-o e enfia-o numa garrafa e a atira ao mar.

Mas, quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos… Quero ver o saldo. Juro que quero. Porque quando ando pelas ruas não vejo nada. O mendigo continua dormindo naquela calçada. A criança continua fumando pedra. O dinheiro público continua sem destino e as barrigas ainda roncam sem parar.

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