Criado-mudo não fala. Suporta.


 

Vejo pessoas queimando outras pessoas na África e imagino que já morri e estou no inferno. Ouço Bohemian Rhapsody e imagino que já morri e estou no céu. Escrevo depois de tudo isso, e me reconheço vivo, boiando no entre. Nem fogo, nem nuvens. Nem Queen, nem Costa do Marfim. Nem desespero, nem paz, nem nem…

Sempre percebi que olhava as coisas de um jeito diferente. A capa dos meus cadernos nunca foi importante. Abria os carros para ver o que tinha dentro. Abria os lagartos para ver o que tinha dentro. Abria os livros para ver o que tinha dentro. Só saía de dentro para ver o que tinha fora.

Hoje, depois de aprender o que me diziam que era certo, acredito que o certo é realmente certo, e que tudo faz sentido e tem seu momento. Seu clímax. Seu bordão clichê e final feliz. E, de fato, o maior tesouro que existe é o outro. O que eu faria sem vocês? O que fariam sem mim? O que faríamos sem eles? Nada.

O planeta chegou a um período crítico. Ou vai ou racha. Todos já percebem isso. É algo muito além da politicagem larapia, do traficante no morro, da NASA, da eterna guerra no Oriente Médio ou do Facebook. É mais além. Não sei explicar. Mais profundo que o poço de Kola. Mais alto que o prédio Khalifa. Mais velho que o velho Simeão. Mais novo que o amanhã. Como definir?

Ao dormir, sempre me pergunto o motivo de ter nascido agora. Nessa era. Nesse caos. Nessa facilidade. Nessa casa… Há tempos atrás eu achava que viver era um grande peso. Típico dos adolescentes que se revoltam por não terem pedido pra nascer. Pena que eles esquecem (como também esqueci) que poderiam ter desistido na hora da fecundação. Outros milhões de irmãozinhos tomariam a frente. Mas espermatozoide não pensa. Ou pensa?

Bem, o fato é que os outros são caros. Caros que valem o preço. A vida presenteia por bondade, só pode. Pessoas especiais que aparecem em nossa vida não podem surgir do acaso. O acaso é burro. E se espera que o burro produza asnice. Logo, o especial cria especialidades, ou seja, pessoas. Sem elas não resta nem o sem.

Mas, continuam matando por aí. Continuam se odiando por aí. E daí? Não matei ninguém. Não odeio ninguém. E sou gente. Bicho, desses que pensam. Desses que vão à missa. Desses que bebem whisky. Desses que se apaixonam. Desses que cantam. Desses que acham que estão no inferno quando avistam o caos. Desses que acham que estão no céu quando ouvem “Mama, oh, I don't want to die”. Sou desses. E somos muitos. A gente não faz mal a ninguém. A gente está aqui. A gente não fuma pedra nem sabe atirar. A gente quase não vai à igreja, mas crê. A gente não tem dinheiro, mas empresta o colchão. A gente mora longe, mas está perto.

Meta de vida que você, caro leitor, deveria fazer: Deixe que roubem. Deixe que matem. Deixe que queimem… Nós não somos da liga da justiça. Logo, não dá pra conter. Só chore, quando for oportuno. Só ria, quando for a ocasião. Lamente a desgraça, mas mude de canal.

Fred Mercury faria 67 anos hoje, se estivesse vivo. Hoje é dia 05, certo? Pelo menos estou escrevendo isso no dia 05 de Setembro. Ainda queimam pessoas vivas na África. Pequenos grupos, eu sei. Mas há 500 anos imagens como estas, que eu vi e milhares já viram na intenet, não chocavam. Não embrulhavam os estômagos. Não faziam chorar.

Como a gente muda, não é? Continuam queimando gente por qualquer motivo, enquanto os olhos de milhares ficam marejados de lágrimas. É a evolução mostrando seus sinais. Sou desses otimistas que acreditam que de qualquer forma o vento sopra. Anyway the wind blows.

Twitter @DiegoSchaun

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