José Genoíno reconheceu a própria invalidez.


 

No auge da serenidade a gente emburrece. Faltando uma carta para montar a pirâmide tudo cai. Que vento do diabo! Na hora do beijo, o tão esperado beijo, o celular vibra. É última cena do filme e de repente a luz acaba… Será que nós, aqui, somos marionetes do acaso, mesmo sabendo que o acaso é burro? Não é justo. Alguém com algum tipo de poder quer nos ferrar. Só pode!

Todo mundo já passou por períodos de descrença. Mas toda descrença é passageira. Os que não acreditam em nada são infelizes. Logo, quando percebem que essa infelicidade não vem do Náutico ou do Vasco (que estão prestes a cair para a segundona) resolvem acreditar em alguma coisa. Essa efervescência, eu costumo chamar de fé.

Sim, sou um perfeito crente. Acredito em tudo, em todos e olha só, acredito em mim. Tenho fé na força do silêncio e na paz da euforia. Isso é próprio dos brasileiros. E creio piamente que tudo o que acontece nesta nação tem um leve empurrão da nossa fé. Os políticos dão prova disso. Só existe corrupto roubando no Congresso porque nós, os crentes, dissemos amém no final da doxologia.  

Possivelmente a nação se indignou com o pedido de aposentadoria (por invalidez) do senhor José Genoíno. Ele também é brasileiro. Ele também vota. Ele também crê. Ele também, também, também e também. Mas este pobre senhor também foi condenado. Dizem aí que ele roubou do seu bolso. Do meu também. Como disse acima, sou desses que acreditam, logo, cadeia já. Mas nós, crentes, gostamos da misericórdia. Porque é importante. Só por isso. Tanto faz se meu pai precisará trabalhar duzentos anos para se aposentar ou se meu tio, que não anda e é aclamado como inválido, não consegue se aposentar. Eles são exceções. Não ganham 26 mil reais por mês. Não são deputados. Não tem o costume de rezar. Não desviam verbas. Nunca tem dinheiro para comprar aviões. Compram qualquer pão em qualquer padaria. Bebem litrões aos domingos e votam nos mesmos caras depois das copas.

Quando li a notícia deste pedido de aposentadoria (que ainda será avaliado) me assustei e resolvi ficar indignado. Mas tenho boa memória e lembrei que toda vez que alguma desgraça acontece com a ética da nação, qualquer choro é alimento para o vazio. O vazio… Você conhece o vazio? Pois é. Ele é simplesmente o nosso dia a dia. Ótimo que existam pessoas que acreditam. Nós. Mas nós não somos nada, meus queridos. Nada vezes nada. No mundinho deles que dizem que é nosso, somos apenas moscas sem memória. Acordamos religiosamente para trabalhar zunindo e terminamos o dia quebrados, aptos para sentar no bolo ou na bosta.

A invalidez é outra questão que acima de tudo, é poética. O que seria um homem inválido? O que não consegue assinar com as próprias mãos? Aquele que não pode caminhar com as próprias pernas? Seria então um inválido o homem ou mulher que não é capaz de tomar as próprias decisões? É então inválido um trabalhador que não consegue alimentar três filhos com pelo menos duas refeições diárias? Bem, se tudo isso for invalidez, creio que somos um país de inválidos.

Mas nada disso vem ao caso. Podemos levar uma vida tranquila, se tivermos sorte. A vida se encarrega de propor os encontros essenciais. A vida se encarrega de criar as linguagens especiais para as pessoas especiais. A vida se encarrega de encarregar.

A maior especialidade dos crentes brasileiros é que eles sabem crer. Não desanimam. Basta assistir Dirty Dancing na sessão da tarde com alguém especial que tudo some. Tudo desaparece. A luz se apaga e a gente chega à beira do abismo para decidir entre o tudo e o nada.

É louvável que o Genoíno se aposente e ganhe seus vinte e tantos mil por mês. Não quero ser um bobo infeliz que vive a chorar por verbinhas e verbetes que trocam de lugar. Como meu armamento é de baixo calibre, não ousarei entrar nessa guerra. Que rezem os crentes. Que esqueçam os inválidos. Que se alegrem os bobos, mesmo que sejam dois.

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