Ensaio sobre dúvidas, medos e unhas dos pés.


 

E do nada você percebe que as unhas dos pés estão enormes. Elas crescem assim, sem mais nem menos. Imperceptíveis até o primeiro incômodo. Depois de aparadas, o falso alívio é imediato. Meias, sapatos e passos. Ninguém se lembra das unhas cortadas. Ninguém. Elas não são notadas. Nem visíveis. Nem nada.

Mas elas continuam crescendo. Cada dia, um décimo de um milímetro. Um caminho contínuo. Invisível, até certo ponto. Todavia as unhas crescem e crescem sem motivo. Elas crescem como as interrogações que surgem dentro do peito diariamente. Faço ou não faço? É a pessoa certa? É a pessoa errada? É uma pessoa? Sou eu? Quem são estes que tanto me incomodam? Quem são estas unhas?

Existem dias, como hoje, em que os medos já não vingam. Só a dúvida. O medo trava. A dúvida paralisa momentaneamente. Esse é o insight. No dia que eu descobri que era melhor duvidar do que temer, um mundo novo surgiu. Dá para entender isso? Duvidar é melhor que temer!

Quando se tem medo de algo ou alguém, dá-se todo o crédito a este ser ou coisa. Se nós sentimos medo do bicho papão é porque estamos afirmando tenazmente que ele é superior, forte, capaz, ágil, enfim, poderoso. E quem é poderoso, é poderoso. É o melhor em tudo. Inclusive melhor do que nós.

Se, por acaso, escolheres duvidar do bicho papão, aí tudo muda. No primeiro ato da dúvida, a questão mais evidente a surgir é: Ele existe? Bem, se você cogita a não existência do bicho, pode ser que ele realmente não exista. Se ele não existe, não há o que temer. Se, ao contrário, ele realmente for um bicho bravo, outras questões surgem automaticamente: Por que ele é forte? Por que devo temer algo que é meio mito meio real? Por que ele é papão e não papinho? Já teve papeiras?

Calma que isso tudo é uma piada pequena. O exemplo não foi o melhor, muito menos a explicação. Como ando dormindo muito pouco, os neurônios não estão nessa coca-cola toda não. Com essa onda de ratos… Bem, isso faz sentido. Dúvida além do medo.

Se, por acaso, todas as teses caírem, é viável correr do bicho. Ninguém é da liga da justiça. Nem todos conseguem filosofar na hora do perigo. Digamos que essa tese da dúvida não seja totalmente segura em casos de perigo. Vejamos então num caso de paz.

Suponhamos que você acabou de acordar. Pássaros cantandos. Dia ensolarado. Fresco. Nem é cedo ou tarde. É manhã. A mais linda. Tudo está muito bem. Não deves a ninguém. Estás só ou acompanhado. Siga seu instinto de paz. Terias, pois, medo desta paz ou duvidaria dela?

A dúvida vai salvar de novo. Por que temer a paz se ela é o oposto do perigo? Logo, só resta duvidar. Uma manhã ensolarada é sinônima de paz? Pássaros cantando exalam alegria? Até quando? Em que momento? Pode ser que aquela seja a sua pior manhã. Puro azar. Mas azar não é lógico. Nem se cogita.

Duvide das manhãs. Não as tema. Duvide do monstro. Não o tema. Duvide dos outros. Não tenha medo deles. Duvide até de si mesmo. Não tenha medo de duvidar. Duvide até do medo. O medo é ruína. A dúvida é um muro alto que nos protege por algum tempo de certas verdades imperceptíveis até o primeiro incômodo. Quando o tempo chegar e o muro cair, irá perceber do nada que suas unhas dos pés estão enormes. Sem dúvidas. Sem medo. É de lei.

Por favor, não siga à risca. Faz mal.

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