Quando a vida se torna um susto.


 

*Nota: Este texto é completamente egoísta.

Existe, por parte de certos adultos da classe média depressiva, muito rancor cultural. Chovem pessoas que adoram ouvir Chico Buarque e não conhecem três ou quatro canções do próprio. Todo mundo sabe de tudo, mas um tudo superficial. Ninguém se aprofunda. Ninguém mergulha. Ninguém bebe a água inteira. Ninguém…

E por que deveriam? Por que precisam saber de tudo? Quem provará? Quem virará a noite inteira interrogando os sabichões que nada sabem? Tenho medo de quem vive assim, temendo verdugos invisíveis.

Sou desses que deitam para dormir e demoram horas e horas supondo amanhãs. Quando é conveniente, ouço acordes diversos. De Suzanne Vega à Sivuca. Quando não existe música humana, ouço a noite. Planejo canções. Tracejo crônicas. Duvido das coisas que fiz. Relembro os amigos esquecidos. Esqueço os conhecidos. Rezo. Suspeito dos caras que acham que fazem o mundo e dominam subtítulos. Conto as respirações…

Algo me assusta há anos. Serei objetivo. A vida me assusta. Já não me preocupo com o que os outros pensam da vida. Gastei um tempo precioso com isso. Será que o azul que eu enxergo é o mesmo que eles enxergam? Será que ninguém se toca que a existência é algo totalmente incomum? Será que eles também não se perguntam: Por que estou aqui?

Sim, a vida me assusta. Assusta muito. Mais do que a altura da roda-gigante. Mais do que as pessoas que veneram o Chico Buarque. Mais do que a queda para a série B. Mais do que a rejeição de quem eu amo. Assusta muito! E às vezes eu até me sinto um idiota por pensar assim e saber que os outros pensam assim de mim. Por que você, que me lê agora, possivelmente está sem entender nada e me achando um idiota. Quem teria medo da vida? Eu. Pelo menos sou homem para dizer que tenho medo, e não dúvida, neste caso.

Quando abro os olhos, ao acordar, e me deparo num quarto, num corpo, num lugar, numa vida, sinto algo inominável. Eu estou vivo! Mas, eu sempre estive vivo. Sempre me lembrei de estar vivo. Não me lembro de ter morrido em algum momento. Essa é a especialidade da vida. Acostume-se a ela ou acostume-se a ela.

Não, não faço apologia ao suicídio. Suicidas são pessoas que não viveram. São humanos que tiraram a própria morte, que é própria de quem vive. É bom deixar isso claro, pois todo o resto do mundo defeca para mim e para as coisas que me assustam. Logo, o meu parecer sobre assuntos delicados pode se tornar mais delicado ainda em cabeças de ventos.

Esse susto de viver não é permanente. Aparece, como diria um amigo, um dia sim, um dia sim. Enquanto criam-se partidos novos, igrejas novas, santos novos, músicas novas, "novas" novas, me sinto um velho que tem medo da vida, e só dela. Não tenho medo de viver. Só de estar vivo. Assusta. Não te assusta respirar? Não te assusta acordar? Não te assusta suar? Cheirar? Compreender sons? Ter sentimentos? Não? Parabéns, você faz parte do mundo alheio. Ou eu.

Acertei na loteria e ganhei a vida de presente. Na real, sou como um novo rico que está em êxtase por receber milhões de reais, de uma só vez. Estou me acostumando a viver e isso vicia. Talvez, quando estiver mais velho (mais do que já sou) eu não me assuste com o que é tão ignóbil para todos. Tomara que não. Quero temer a vida como quem teme o abismo. De forma que eu esteja nela e ela em mim mantendo certa distância. Assim poderei olhar minha própria vida de longe, para saber por onde andei e quem andou comigo.

Pelo menos não sou membro da classe média depressiva que adora ouvir Chico Buarque e não conhece três ou quatro canções do próprio. Estes sim, acordam e não se assustam. 

Twitter @DiegoSchaun

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