Uma vida sem relógios.


 

Sempre dizia para os outros que não conseguiria, jamais, viver sem relógio. Porque aquela caixinha de ponteiros fazendo tic tac o tempo inteiro era o meu tempo. Um tempo inteiro. Sem espaço para mais nada. Sem nada para espaçar meu tempo inteiro e sem espaço. Em algum momento a pulseira quebrou e eu fiquei sem relógio. E o mundo não acabou. Não comprei outro relógio. O tempo não parou. Nada mais de espaços inteiros, nem de tempos de nada.

O antebraço seco, seco ficou. O bronze diário nivelou as cores da minha pele e a marca solar do relógio desapareceu. Roubaram o tempo de mim. Roubaram meu tic tac. Roubaram minha rotina. Roubaram meu tempo. Roubaram meus atrasos. Roubaram minhas pontualidades. Roubaram-me.

Usava o relógio no braço esquerdo. Sou destro e alguém me disse na infância que era melhor usar o relógio no braço oposto ao que se tem habilidade para escrever. Motivo? Para poder olhar as horas sem precisar parar de escrever. Segui a técnica religiosamente até hoje. Tenho plena certeza de que isso não faz sentido. E o que faz sentido nesse mundo? O problema é que criei um preconceito com pessoas que usam relógio no braço direito. Preciso trabalhar isso…

Mas a gente se acostuma com qualquer coisa. Adão conseguiu sobreviver ao desprezo de Deus. Fumantes teimosos vivem noventa anos. Pessoas de bem vivem cem anos em meio ao caos. Os românticos choraram seus amores, mas riram quando a banda passou na rua. O sorvete derreteu e achei isso o máximo, porque é melhor se transformar em água sob a luz do sol do que virar baba em línguas viscosas e desconhecidas. Tudo se ajeita. Vai por mim!

Sem relógio ainda estou. Uso braceletes de couro. Pulseiras finas. Uso nada. Não perdi as horas. Me achei nelas. Ainda me atraso, entretanto conto-os, porque atrasos somados são horas demais. E eu adoro guardar as horas, para usá-las, quando necessário. Gosto das horas como quem gosta de viver. Elas passam por mim, toda hora, e piscam o olho sorrateiramente, como se fossem meretrizes no início da noite, sedentas pelo meu tempo, pela minha atenção, pelo meu real.

Guardei muitas horas e perdi a maioria delas. Nesse meio tempo, observei o que fiz ou deixei de fazer para escrever por horas, ou compor por horas, ou dormir por horas, ou paralisar por horas… Não deixei de fazer nada, ou fiz tudo o que devia ser feito. Enquanto escrevi verbetes garbosos demais em folhas brancas demais, os olhos que me desconheciam zombavam do meu desconhecimento por desconhecerem que não me conheciam. Chorei por leites derramados. Xinguei pastores. Induzi ao erro mútuo. Ri dos idiotas. Filosofei. Emburriquei. Errei concordâncias verbais cabalmente. Menti…

Tanto tempo sem relógio no braço que não sei mais se dois ponteiros juntos são meio-dia ou meia-noite. Conto as horas com a ajuda da saudade. Sempre sei quando são 17 horas. Me atraso pelo cheiro. O odor das 3 e 40 é inigualável. Meio-dia é quando tenho fome. Meia-noite é quando dou bom dia. Nove horas, é quando fico tenso. Dez horas, é quando estou só.

Sou desses que dormem pouco e detestam os caras que se dizem filhos do Rei-Sol. Porque nesse meio tempo sem relógio eu entendi que o Sol é nada mais que um astro que boia no negrume do vácuo. E o negrume do vácuo é o que há. Lá estão as horas que perdi.

Escrevi tanto quanto pude. Falei da criança desnutrida. Das hipérboles de Flaubert. Do suicídio japonês. Dos Papas. Dos prefeitos. Do cão. Da música. Dos roubos. De mim. De você. De nós… O povo tem falado do Bieber pixando muros. O povo tem falado do pré-sal. O povo tem criticado a merenda escolar nutritiva, baseada em pão seco e suco ralo. O povo tem falado de nós. O povo nos esqueceu. O povo tem falado de mortes. O povo tem falado demais.

Afinal, também sou do povo. Sou povão. Falo de tudo, quando posso. Falo de nada, quando me agradecem. Vou comendo pelas beiradas, pra não queimar a boca. Tenho calos na língua. Não mostro a ninguém. Tenho amor. Tenho paz. Tenho raiva. Tenho você.

Ainda estou sem relógios. Uso pulseiras no lugar. Já disse isso? Acho que sim. Ouço Belchior cantando Paralelas. Conto as horas com bocejos. Iniciei cada frase com um verbo na primeira pessoa. Porque sou eu falando comigo mesmo. Mas sinta-se em casa. Você sempre esteve aqui. Não nos conhecemos, mas pode começar a me odiar. Daí pra frente só melhora. O resto é lucro. Questão de horas. Tem horas aí?

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