Ter bom gosto musical é uma mentira.


 

Como é que pode existir alguém assim? Cheio de igualdades? Trejeitos, maneiras, deveres e comportamentos? Já pensaram nisso? Sei que mais ou menos.

Quando se vive numa cidade grande, tornar-se ínfimo é como se transformar em peças enormes de xadrez que passam o jogo inteiro inertes na mesma casa. Como uma torre que se movimenta apenas para rocar ou um bispo que não mata nem mesmo um cachorro em sua diagonal clássica.

Muitas pessoas têm reclamado sobre a mesmice das artes. Estão certas. A arte vive um momento de ouro. Risadinhas e gargalhadas são troféus gastos, cheios de oxidação, em prateleiras cheias de vitórias do passado. Mas é claro que ninguém se importa. A seriedade é levada a sério por todos nós. Por isso a arte é a mesma.

Compor é como parir. Falo isso com a maior tranquilidade do mundo. Sei como funciona esse lance de escrever canções. Sei do sentimento real. Sei das dores. Sei do modus vivendi desses músicos que rodam por aí. Sei.

Mas andam reclamando das composições. Muita gente criticando os MC’s por escreverem canções com letras idiotas, de cunho sexual ou sexual ou sexual. Andam dizendo por aí que certas canções são depreciativas. Galeras costumam ouvir canções populares, porque são populares. Meninas adolescentes ouvem certas coisas porque não conhecem certas coisas do Lulu. Nem sabem dizer…

Algo me inquieta. Se existem pessoas reclamando das composições atuais, é porque uma minoria acordou. Mas, por que acordaram? Como podem saber o que é bom ou não? O que é bom?

Passei muito tempo criticando canções, músicos, estilos musicais, ritmos… Ah, maldita fase de autossuficiência. É duro reconhecer-se ignorante pela descoberta da ignorância do oposto que só é oposto e não pior. Grave isso: O oposto só é oposto. E ser oposto não é pecado, nem virtude. Só é o que se é. O que se é? O que são.

Na sociedade brasileira, existem pessoas que amam Chico Buarque e acham que tudo que ele escreveu é lindo. Não, gente. Nem tudo do Chico é lindo. Ele é de carne e osso. Tem defeitos. O Vaticano ainda não o canonizou. Está certo que ele é tratado como um Venerável vivo. Sim, é venerável, não adorável.

Conheço muita gente que decorou quatro ou cinco canções do João Gilberto e se acha um grande conhecedor de música popular brasileira ou da bossa nova. Estes aí criticam o funk, o arrocha, o brega e outros ritmos populares como se as cinco canções que eles sabem do João Gilberto fossem o mapa da mina para a felicidade. Coitados. Estes morrerão cedo. Ou com câncer de próstata, ou por invalidez sentimental.

Claro que não perco meu tempo ouvindo refrões que incentivam a ralar a bunda no chão. Entretanto, não posso cometer o sacrilégio de afirmar que isso é feio. Quer dizer que Mil perdões do Chico é mais bonita? Quer dizer que existe poesia nas letras de Vital Farias e merda no que o Mr. Catra escreve? É um perigo tudo isso.

Compor é algo pessoal. Ouvir é algo educacional. Chega de clichês. Chega de musiquinhas para ricos ouvirem. Musiquinhas para os pobres ouvirem. Musiquinhas para as menininhas que gritam histéricas. Musiquinhas para os jovens velhos que se dizem avançados porque conhecem todas as canções dos Los Hermanos. Chega.

A gente só não sai do lugar porque pensamos de uma maneira muito igual. Somos seres cheios de igualdades, trejeitos, comportamentos… Porquês demais num texto, não? Deve ser a falta de vocabulário. Afinal, escassez de palavras é música também. Isso está ferrando com o futuro que vem chegando numa aura ruim pra burro.

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