A verdade sobre o que seria um ano.


 

Muita gente gosta de ser igual a todo mundo. Eu adoro ser como os outros, sendo diferente mesmo assim. Ser igual sem ser igual. No final do ano, as TVs fazem retrospectiva de tudo o que aconteceu no tal ano quase morto, como se isso fizesse um grande sentido. Boa parte das pessoas se emociona com um passado recentemente esquecido deixando a comercialidade da mídia fazer o seu papel delicioso. A ilusão novamente ilude e os chorões novamente choram.

Histórias se repetindo. Tudo soa tão natural que a novidade parece bestial. Cantores que morrem. Casamentos que se rompem. Artistas idiotas que faturam muito com pobrezas de caráter. Desastres, solidões, rupturas, prisões e liberdades. Nisso se resume um ano. Prisões e liberdades.

Em janeiro as pessoas tostam ao sol. Morrem com as chuvas. Sonham com o futebol e encontram novos amores. Janeiro é assim. Cheio de material escolar e preguiça. De BBB e de missas. De sundown e bolhas de sangue. Janeiro é assim.

Não, eu não vou escrever características dos doze meses. É cansativo e desnecessário. Existe gente muito capaz e bem paga para fazer análises anuais ou joguinhos fúteis. Sou um fracasso em cobrir espaços desinteressantes ao comércio. A rotina é o caminho do sucesso. Fixe uma programação diária em sua TV por quarenta anos e seja feliz. Mude o designer dos programas. Pinte o cabelo dos atores e troque o rei pela torre. Simples. Isso é sucesso. Isso é a TV. Esse é o final do ano.

Todos fazem suas análises agora. O que rendeu. O que não rendeu. As mortes idas. As vidas vindas. Os calotes, as curas, as pessoas, as festas e as inimizades. Por que relembrar tudo isso só agora? Será que o ano é uma caixa de papelão onde só podemos armazenar artigos específicos? Não é possível.

É muito útil fazer memória de tudo. Mas por que escolher dias específicos para isso? Simples, porque as pessoas precisam de ordens. O ser humano critica a hierarquia e as leis, entretanto vive criando atalhos para comer um pouco mais, ou ligar para os amigos, ou para relembrar os fatos exilados do agora.

A gente tem uma necessidade tremenda de viver burocracias. Não existe retrospectiva em 28 de Julho. Nesta data o ano ainda não acabou e é pecado mortal fazer qualquer coisa fora do script. Tudo tem sua data. Todas as mazelas têm suas filas de espera. Se eu tivesse dinheiro, gostaria de pesquisar o metodismo humano a fundo. Método demais para seres confusos.

Já que o ano é algo físico, palpável, cronometrado e regrado, nós, criadores do calendário, deveríamos ser mais retos. Ninguém faz nada por fazer. Eu escrevo canções e elas só fazem sentido quando os outros escutam. Gregório criou o calendário para que sigamos. Ok, estamos aqui. Finalizando mais um ciclo. Agindo como se deve agir. Arrotando peru, vestidos de branco e sonhando com a nova caixa que chega em instantes, 2014.

Aí, 2013 vai para o armário. Cheio de coisas. Todas velhas e inúteis. Outro dia a gente abre, olha o que tem dentro, resgata alguma coisa e pronto. Vidinha monótona, não? Que chato seguir um mapa que sempre leva ao mesmo tesouro sem valor.

O ser humano é especial na natureza pela sua incongruência. Inventa coisas que não sabe usar. Sonha com causas perdidas. Mata. Mata muito. Perdoa. Chora. Compra. Morre. Morre muito. E finda-se, como o ano (que nunca termina).

Disso consiste um ano. 365 dias demarcados pra nada. O homem gosta de colecionar invencões. Denominar as coisas. Por isso disse que um ano é feito de 365 dias, às vezes 366. De prisões e liberdades. E só. Até o ano que vem… Olha só.  

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