Os médicos cubanos são mais humanos.


 

A barriga ronca de fome. E esse roncar é alto. Silvado. Sonoro. Nítido. Incômodo… A coriza é forte. Escorre pelo buço. Fede. Mela. Seca e vira creca… A febre queima. Treme. Punge. Delira. Sua.

Os sintomas são claros em todos os sentidos. Todos nós sabemos como é ficar doente. E a doença é a maior prova da fraqueza humana. Quando a mobilidade cotidiana é testada, os homens se sentem merdinhas que vivem. Um horror. De repente o super-herói se torna vítima de si mesmo.

A sociedade é regida, inteligentemente, por seres inteligentes. Sim, a redundância foi proposital. Hierarquizar pessoas é uma forma bonita de dizer quem manda num mundo onde a obediência é tida como virtude. Uma virtude um tanto católica, no sentido literal da palavra, e católica, no sentido coloquial da palavra.

Não entendo de políticas públicas, nem de programas salutares que o governo promete para o povo. Não conheço nada de quiromancia nem vou à igrejas todos os domingos. Mas fico doente como todos vocês.

Outro dia um amigo ficou enfermo. Fiquei sabendo dias depois. O próprio fora examinado pelo médico cubano que chegou na minha cidade. Moro, atualmente, no extremo sul da Bahia, numa pequena cidade chamada Camacã. Um médico cubano chegou por aqui recentemente, através do programa Mais Médicos. E em pouco tempo ele vem dando o que falar.

Este meu amigo (que adoeceu) contou-me que a consulta com o tal médico foi muito boa. Disse ainda que “durou mais de vinte minutos e que se sentiu gente”. Fiquei estupefato com aquilo porque tentei entender a semântica, quase romântica, apesar da rima desgraçada, do fato. Não me lembro da última vez em que eu me senti gente, até porque nunca pensei em alguma possibilidade de não ser gente. Sempre me senti “gente” e chato.

Soube que os cubanos não ganham lá essas coisas. Não me dei o trabalho de pesquisar sobre a veracidade do fato porque isso não me importa e meu texto não é notícia. Prefiro acreditar que eles ganham pouco mesmo. E outra, muitas pessoas já comentaram comigo à respeito da cordialidade dos médicos cubanos. Todos são assim? Sabe Deus. Porém, é notório que todo comentário tem um fundamento real.

Aqui na minha cidade, todos os doentes passam mais de vinte minutos no consultório do cubano. Qualquer febre ou tosse é motivo de exímia análise do jovem médico. O normal seria esperar o dia inteiro num posto fedido e mal ventilado para entrar num consultório fedido e mal ventilado e ser atendido por um ser fedido e mal ventilado que num piscar receitaria qualquer remédio fedido e mal ventilado.

As pessoas tendem a se acostumarem com desgraças. O homem se sobressai perante as outras espécies porque consegue se adaptar ao meio. Genial e cruel. Ao mesmo tempo em que somos racionais, somos idiotas. Porque a gente entende tudo, mas não entende nada. De que adianta andar ereto e criar o touch screen se na hora H o rabo fica entre as pernas e a dipirona entre os dentes?

Será que os médicos brasileiros que atendem pelo SUS são tão geniais que adivinham os diagnósticos dos pacientes sem qualquer exame prévio? Será que o cubano só quer aparecer, mostrando que está preocupado com cada ser individualmente? Mas essa não é a obrigação daqueles que na formatura leem o discurso de Hipócrates? Muitas questões.

Resta-nos uma certeza. Os cubanos estão fazendo a diferença utilizando as mesmas armas e atendendo nos mesmos postos de saúde fedidos e mal ventilados. Estão ganhando menos e curando mais. O que há de errado com os médicos brasileiros? O que há de errado com os brasileiros?

Nós somos o problema do Brasil. Alguém de fora tem que desvendar os valores de X e de Y que trucidam nossa caminhada rumo ao sonho de sermos gente. Por enquanto são cubanos. No futuro, marcianos. 

Twitter @DiegoSchaun

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