Escritores de autoajuda só se ajudam. Ou nem isso.


 

Essa poderia ser uma tentativa falida de escrever sobre a vontade quase módica, “quasimódica”, de ser gente. Uma pena, porque eu sei, evidentemente, que a falência faliu e o objetivo será dito no final. A tristeza é uma fonte inesgotável de renda.

Possivelmente, se o mundo vivesse de tristeza, todos seriam felizes. Até porque a existência da tristeza é a comprovação da existência da felicidade. Opostos se autoafirmam. Se ainda existem ruminações, ronronares capciosos em dias tristes de chuva e lágrimas frias, sinal de que está tudo bem e que o mundo não vai acabar.

Pessoas tristes rendem dinheiro. Milhares de Curys, Chalitas e Melos vendem manuais do bem-viver porque eles só conseguem viver assim. Outro dia, estava lendo uma matéria relacionada à profissão de “implantador de cabelos”. Existe um profissional brasileiro que está riquíssimo fazendo tal tarefa. Ele é o Abraão do implante capilar. Trata da cabeça de diversos empresários brasileiros e de mensaleiros no cárcere. Enricou. Especializou-se numa raridade.

Como a depressão e a tristeza vivem em eterno gozo dentro de nossos lares, a resposta não seria outra. Autoajuda! Livros com histórias e frases enfáticas, de linguagem fácil para mentes fáceis, por falta de alternativas genéricas.

Não, caro leitor. Eu não estou a criticar os tristes que leem, nem os tristes que escrevem. Jamais apontarei para o espelho, já que também tenho um tiquinho de tristeza e não leio autoajuda para me desgraçar um pouco menos. Que escrevam, que leiam. Que se curem lendo Cury. Chega de pseudo-intelectuais que criticam os braços e a seringas. Os médicos e os doentes.

Meu único objetivo aqui é lavrar a doença em contrapartida do seu fim. Deve haver algum motivo para tanta depressão. Ou não. Talvez as pessoas sempre estiveram na ausência do bem-estar. O boom da comunicação fez a tristeza cruzar os oceanos com mais facilidade. O suicídio é antigo, desde os tempos dos mongóis e nipônicos contemporâneos de Confúcio. As perdas por qualquer motivo banal eram corriqueiras. Tristes, por assim dizer.

Novamente ressalto que não estou aqui para analisar a causa do sofrimento permanente ou das pílulas catalisadoras em forma de livros. Somos grandinhos e a gente sabe o que acontece se engolir uma bala ou se ouvir o Justin Bieber. Somos racionais. Evoluídos. Bem superiores aos cavalos. Afinal, deificamos a felicidade a cada menção de depressão. Se os bichos ficam tristes, essa tristeza é mais relevante que a nossa, já que cavalos não sabem ler.

Os humanos tristes têm a grande capacidade de usarem esse presente da natureza (a tristeza) como fonte de renda. Ganhar dinheiro escrevendo coisas que mexem com o potencial de restauração dos outros é uma grande sacada. Por isso o ser humano é genial. Mesmo na aceitação da imperfeição e das limitações, ele ainda consegue “tentar” ajudar o outro escrevendo alguma coisa, que nem para ele servirá. Genial. Genial!

Gostaria de saber o que passa na cabeça de um escritor que lança livros do tipo: “Saiba como ficar rico e deixar de vez o marasmo da vida!”. Será que ele está em casa, e de repente, assim do nada, dá um salto e diz: Vou escrever um guia prático, elucidando causas e pontos positivos sobre isso e aquilo…! Será?

Juro que eu queria ser assim. Adoraria levantar da cama, logo cedo, sentar à frente do computador e escrever mapas da mina. Infelizmente não consegui ainda. E agradeço por isso. Não tenho essa audácia de querer ajudar os outros disfarçando minha ditadura de “autoajuda”. Se já é auto então sou eu. São eles, por eles mesmos. Elas, por elas mesmas. Um pensamento um tanto egoísta, mas jamais, vejam só leitores, jamais mentiroso.

Leiam à vontade. Curem-se. Isso que importa. Já que não quero ser um Paulo Coelho fajuto ou um Bidu milionário, permanecerei no silêncio da observação, a esgueirar-me das soluções fácies e das soluções químicas.

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