A censura ainda existe. Só mudou de dono.


 

Rios caudalosos nem sempre desaguam no mar. Talvez os mares não gostem de alguns rios. Deve ser isso. Os mares escolhem o tipo de sangue que receberão na transfusão. Os mares não precisam de rios caudalosos. Os mares não precisam de sangue. Os mares são nossas utopias. Somos eternos Nilos sonhando com o Delta. A gente sonha com o mar, mas ele não liga pra gente.

Não, caro leitor. Eu não fumei maconha. Mas seria muito bom se a gente pudesse driblar a cara de pau dos zagueiros politicamente corretos. Porque hoje em dia ninguém pede ajuda ao bom senso. Tudo tem que ser medido da forma correta. As pessoas não podem falar suas opiniões, preconceituosas ou não. As opiniões são só ideias. E elas ferem como faca. Ferem como qualquer coisa aparentemente letal.

Por obra do destino eu não vivi os anos 1970. Na época em que a ditadura militar censurava músicas do Chico, poemas do Gullar e rebeldias dos roqueiros, os rios caudalosos já sonhavam em cair dentro do mar. Ninguém podia dizer o que queria. As opiniões feriam como faca. Uma letra fora do lugar era o motivo de mudar de lugar. Daqui para o lado de lá.

Ora, isso é só um passadinho bonito, que rouba uma página de qualquer livro didático de história. Vivemos, graças a Deus, num país onde qualquer um pode falar que o presidente é beberrão e que o funk é uma porcaria. Os homofóbicos podem ter nojo dos homossexuais, e vice-versa, e os evangélicos podem cuspir no papa. Uh, que beleza! Beleza o caramba!

Existe uma burguesia metida a intelectual por aí que desaprova qualquer opinião que não esteja nos padrões. As pessoas só podem exibir seus juízos da boca para dentro. Falar publicamente o que pensa é motivo de cadeia. Se eu começar a escrever tudo o que eu penso aqui, senhoras e senhores, estarei lascado. Serei taxado de comunista, fascista, homofóbico, heterofóbico, judeu, vascaíno… Porque julgar é verbo intransitivo e intransigente. Um cromossomo popular.

Um assunto que incomoda muita gente é a homossexualidade. Falar desse assunto é como caminhar em campos minados. Qualquer palavra ambígua e boom! Daí quem não tiver preconceito passa a ter e o certo vira duvidoso.

Quando a gente lê sobre a história do século XX e relembra de Lênin, Stálin, Hitler, Mussolini, Franco, Médici, Malcolm X, Martin Luther King, Gandhi, Mao, Nixon, Castro, Che, Pinochet, Lula e Mandela, fica claríssimo que viver em 2014 é bem melhor do que ter vivido em 1944, por exemplo. Mas só parece.

De que adianta ter uma liberdade vigiada, insanamente, por pessoas que são poços de incongruências? Parece baboseira, mas não é. Afirmamos que somos inteligentes, democráticos e racionais. Claro, isso até alguém pisar em nosso calo. Se você, meu caro, detesta alguma coisa ou não concorda comigo, guarde para si. Posso enviar agentes secretos na sua casa e fazer uma fuzarca. Só que não.

A censura simplesmente mudou de nome. Aliás, mudou de dono. Antes era do governo. Agora é regida pelo imaginário popular da burguesia metida a intelectual. Essa burguesia é composta de esquerdistas frustrados, ex-religiosos, alguns professores que latem, mas não mordem nem queijo, jornalistas bem pagos para ressaltar que a bucha de sena é também chamada de carreirão e uma galerinha que se espanta ao saber que Gandhi tinha um namorado alemão malhadão.

Que liberdade é essa, minha gente? Quer dizer que o que a gente pensa só pode ser proferido se estiver de acordo com as normas da ABNT? Tenho medo desses que se dizem “paz e amor” o tempo todo. São eles que nos impedem de pensar, pois querem ser os patronos da imunização racional (mas no fundo estão com medo). No passado já calaram nossa voz. No futuro calarão nosso silêncio. Afinal, os inertes podem ser subversivos. Já são. Somos. 

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