A verdade sobre o que seria um ano.


 

Muita gente gosta de ser igual a todo mundo. Eu adoro ser como os outros, sendo diferente mesmo assim. Ser igual sem ser igual. No final do ano, as TVs fazem retrospectiva de tudo o que aconteceu no tal ano quase morto, como se isso fizesse um grande sentido. Boa parte das pessoas se emociona com um passado recentemente esquecido deixando a comercialidade da mídia fazer o seu papel delicioso. A ilusão novamente ilude e os chorões novamente choram.

Histórias se repetindo. Tudo soa tão natural que a novidade parece bestial. Cantores que morrem. Casamentos que se rompem. Artistas idiotas que faturam muito com pobrezas de caráter. Desastres, solidões, rupturas, prisões e liberdades. Nisso se resume um ano. Prisões e liberdades.

Em janeiro as pessoas tostam ao sol. Morrem com as chuvas. Sonham com o futebol e encontram novos amores. Janeiro é assim. Cheio de material escolar e preguiça. De BBB e de missas. De sundown e bolhas de sangue. Janeiro é assim.

Não, eu não vou escrever características dos doze meses. É cansativo e desnecessário. Existe gente muito capaz e bem paga para fazer análises anuais ou joguinhos fúteis. Sou um fracasso em cobrir espaços desinteressantes ao comércio. A rotina é o caminho do sucesso. Fixe uma programação diária em sua TV por quarenta anos e seja feliz. Mude o designer dos programas. Pinte o cabelo dos atores e troque o rei pela torre. Simples. Isso é sucesso. Isso é a TV. Esse é o final do ano.

Todos fazem suas análises agora. O que rendeu. O que não rendeu. As mortes idas. As vidas vindas. Os calotes, as curas, as pessoas, as festas e as inimizades. Por que relembrar tudo isso só agora? Será que o ano é uma caixa de papelão onde só podemos armazenar artigos específicos? Não é possível.

É muito útil fazer memória de tudo. Mas por que escolher dias específicos para isso? Simples, porque as pessoas precisam de ordens. O ser humano critica a hierarquia e as leis, entretanto vive criando atalhos para comer um pouco mais, ou ligar para os amigos, ou para relembrar os fatos exilados do agora.

A gente tem uma necessidade tremenda de viver burocracias. Não existe retrospectiva em 28 de Julho. Nesta data o ano ainda não acabou e é pecado mortal fazer qualquer coisa fora do script. Tudo tem sua data. Todas as mazelas têm suas filas de espera. Se eu tivesse dinheiro, gostaria de pesquisar o metodismo humano a fundo. Método demais para seres confusos.

Já que o ano é algo físico, palpável, cronometrado e regrado, nós, criadores do calendário, deveríamos ser mais retos. Ninguém faz nada por fazer. Eu escrevo canções e elas só fazem sentido quando os outros escutam. Gregório criou o calendário para que sigamos. Ok, estamos aqui. Finalizando mais um ciclo. Agindo como se deve agir. Arrotando peru, vestidos de branco e sonhando com a nova caixa que chega em instantes, 2014.

Aí, 2013 vai para o armário. Cheio de coisas. Todas velhas e inúteis. Outro dia a gente abre, olha o que tem dentro, resgata alguma coisa e pronto. Vidinha monótona, não? Que chato seguir um mapa que sempre leva ao mesmo tesouro sem valor.

O ser humano é especial na natureza pela sua incongruência. Inventa coisas que não sabe usar. Sonha com causas perdidas. Mata. Mata muito. Perdoa. Chora. Compra. Morre. Morre muito. E finda-se, como o ano (que nunca termina).

Disso consiste um ano. 365 dias demarcados pra nada. O homem gosta de colecionar invencões. Denominar as coisas. Por isso disse que um ano é feito de 365 dias, às vezes 366. De prisões e liberdades. E só. Até o ano que vem… Olha só.  

Twitter @DiegoSchaun

 

Facebook facebook.com/DiegoSchaun

Ter bom gosto musical é uma mentira.


 

Como é que pode existir alguém assim? Cheio de igualdades? Trejeitos, maneiras, deveres e comportamentos? Já pensaram nisso? Sei que mais ou menos.

Quando se vive numa cidade grande, tornar-se ínfimo é como se transformar em peças enormes de xadrez que passam o jogo inteiro inertes na mesma casa. Como uma torre que se movimenta apenas para rocar ou um bispo que não mata nem mesmo um cachorro em sua diagonal clássica.

Muitas pessoas têm reclamado sobre a mesmice das artes. Estão certas. A arte vive um momento de ouro. Risadinhas e gargalhadas são troféus gastos, cheios de oxidação, em prateleiras cheias de vitórias do passado. Mas é claro que ninguém se importa. A seriedade é levada a sério por todos nós. Por isso a arte é a mesma.

Compor é como parir. Falo isso com a maior tranquilidade do mundo. Sei como funciona esse lance de escrever canções. Sei do sentimento real. Sei das dores. Sei do modus vivendi desses músicos que rodam por aí. Sei.

Mas andam reclamando das composições. Muita gente criticando os MC’s por escreverem canções com letras idiotas, de cunho sexual ou sexual ou sexual. Andam dizendo por aí que certas canções são depreciativas. Galeras costumam ouvir canções populares, porque são populares. Meninas adolescentes ouvem certas coisas porque não conhecem certas coisas do Lulu. Nem sabem dizer…

Algo me inquieta. Se existem pessoas reclamando das composições atuais, é porque uma minoria acordou. Mas, por que acordaram? Como podem saber o que é bom ou não? O que é bom?

Passei muito tempo criticando canções, músicos, estilos musicais, ritmos… Ah, maldita fase de autossuficiência. É duro reconhecer-se ignorante pela descoberta da ignorância do oposto que só é oposto e não pior. Grave isso: O oposto só é oposto. E ser oposto não é pecado, nem virtude. Só é o que se é. O que se é? O que são.

Na sociedade brasileira, existem pessoas que amam Chico Buarque e acham que tudo que ele escreveu é lindo. Não, gente. Nem tudo do Chico é lindo. Ele é de carne e osso. Tem defeitos. O Vaticano ainda não o canonizou. Está certo que ele é tratado como um Venerável vivo. Sim, é venerável, não adorável.

Conheço muita gente que decorou quatro ou cinco canções do João Gilberto e se acha um grande conhecedor de música popular brasileira ou da bossa nova. Estes aí criticam o funk, o arrocha, o brega e outros ritmos populares como se as cinco canções que eles sabem do João Gilberto fossem o mapa da mina para a felicidade. Coitados. Estes morrerão cedo. Ou com câncer de próstata, ou por invalidez sentimental.

Claro que não perco meu tempo ouvindo refrões que incentivam a ralar a bunda no chão. Entretanto, não posso cometer o sacrilégio de afirmar que isso é feio. Quer dizer que Mil perdões do Chico é mais bonita? Quer dizer que existe poesia nas letras de Vital Farias e merda no que o Mr. Catra escreve? É um perigo tudo isso.

Compor é algo pessoal. Ouvir é algo educacional. Chega de clichês. Chega de musiquinhas para ricos ouvirem. Musiquinhas para os pobres ouvirem. Musiquinhas para as menininhas que gritam histéricas. Musiquinhas para os jovens velhos que se dizem avançados porque conhecem todas as canções dos Los Hermanos. Chega.

A gente só não sai do lugar porque pensamos de uma maneira muito igual. Somos seres cheios de igualdades, trejeitos, comportamentos… Porquês demais num texto, não? Deve ser a falta de vocabulário. Afinal, escassez de palavras é música também. Isso está ferrando com o futuro que vem chegando numa aura ruim pra burro.

Twitter @DiegoSchaun

Facebook facebook.com/DiegoSchaun

Uma vida sem relógios.


 

Sempre dizia para os outros que não conseguiria, jamais, viver sem relógio. Porque aquela caixinha de ponteiros fazendo tic tac o tempo inteiro era o meu tempo. Um tempo inteiro. Sem espaço para mais nada. Sem nada para espaçar meu tempo inteiro e sem espaço. Em algum momento a pulseira quebrou e eu fiquei sem relógio. E o mundo não acabou. Não comprei outro relógio. O tempo não parou. Nada mais de espaços inteiros, nem de tempos de nada.

O antebraço seco, seco ficou. O bronze diário nivelou as cores da minha pele e a marca solar do relógio desapareceu. Roubaram o tempo de mim. Roubaram meu tic tac. Roubaram minha rotina. Roubaram meu tempo. Roubaram meus atrasos. Roubaram minhas pontualidades. Roubaram-me.

Usava o relógio no braço esquerdo. Sou destro e alguém me disse na infância que era melhor usar o relógio no braço oposto ao que se tem habilidade para escrever. Motivo? Para poder olhar as horas sem precisar parar de escrever. Segui a técnica religiosamente até hoje. Tenho plena certeza de que isso não faz sentido. E o que faz sentido nesse mundo? O problema é que criei um preconceito com pessoas que usam relógio no braço direito. Preciso trabalhar isso…

Mas a gente se acostuma com qualquer coisa. Adão conseguiu sobreviver ao desprezo de Deus. Fumantes teimosos vivem noventa anos. Pessoas de bem vivem cem anos em meio ao caos. Os românticos choraram seus amores, mas riram quando a banda passou na rua. O sorvete derreteu e achei isso o máximo, porque é melhor se transformar em água sob a luz do sol do que virar baba em línguas viscosas e desconhecidas. Tudo se ajeita. Vai por mim!

Sem relógio ainda estou. Uso braceletes de couro. Pulseiras finas. Uso nada. Não perdi as horas. Me achei nelas. Ainda me atraso, entretanto conto-os, porque atrasos somados são horas demais. E eu adoro guardar as horas, para usá-las, quando necessário. Gosto das horas como quem gosta de viver. Elas passam por mim, toda hora, e piscam o olho sorrateiramente, como se fossem meretrizes no início da noite, sedentas pelo meu tempo, pela minha atenção, pelo meu real.

Guardei muitas horas e perdi a maioria delas. Nesse meio tempo, observei o que fiz ou deixei de fazer para escrever por horas, ou compor por horas, ou dormir por horas, ou paralisar por horas… Não deixei de fazer nada, ou fiz tudo o que devia ser feito. Enquanto escrevi verbetes garbosos demais em folhas brancas demais, os olhos que me desconheciam zombavam do meu desconhecimento por desconhecerem que não me conheciam. Chorei por leites derramados. Xinguei pastores. Induzi ao erro mútuo. Ri dos idiotas. Filosofei. Emburriquei. Errei concordâncias verbais cabalmente. Menti…

Tanto tempo sem relógio no braço que não sei mais se dois ponteiros juntos são meio-dia ou meia-noite. Conto as horas com a ajuda da saudade. Sempre sei quando são 17 horas. Me atraso pelo cheiro. O odor das 3 e 40 é inigualável. Meio-dia é quando tenho fome. Meia-noite é quando dou bom dia. Nove horas, é quando fico tenso. Dez horas, é quando estou só.

Sou desses que dormem pouco e detestam os caras que se dizem filhos do Rei-Sol. Porque nesse meio tempo sem relógio eu entendi que o Sol é nada mais que um astro que boia no negrume do vácuo. E o negrume do vácuo é o que há. Lá estão as horas que perdi.

Escrevi tanto quanto pude. Falei da criança desnutrida. Das hipérboles de Flaubert. Do suicídio japonês. Dos Papas. Dos prefeitos. Do cão. Da música. Dos roubos. De mim. De você. De nós… O povo tem falado do Bieber pixando muros. O povo tem falado do pré-sal. O povo tem criticado a merenda escolar nutritiva, baseada em pão seco e suco ralo. O povo tem falado de nós. O povo nos esqueceu. O povo tem falado de mortes. O povo tem falado demais.

Afinal, também sou do povo. Sou povão. Falo de tudo, quando posso. Falo de nada, quando me agradecem. Vou comendo pelas beiradas, pra não queimar a boca. Tenho calos na língua. Não mostro a ninguém. Tenho amor. Tenho paz. Tenho raiva. Tenho você.

Ainda estou sem relógios. Uso pulseiras no lugar. Já disse isso? Acho que sim. Ouço Belchior cantando Paralelas. Conto as horas com bocejos. Iniciei cada frase com um verbo na primeira pessoa. Porque sou eu falando comigo mesmo. Mas sinta-se em casa. Você sempre esteve aqui. Não nos conhecemos, mas pode começar a me odiar. Daí pra frente só melhora. O resto é lucro. Questão de horas. Tem horas aí?

Twitter @DiegoSchaun

Facebook facebook.com/DiegoSchaun

Brasil: A educação musical infantil é ridícula!


 

E depois do trabalho, você chega em casa e acha que o mundo é melhor, só por poder tomar um banho quente, comer um pão com queijo e depois assistir à rodada do brasileirão de quarta-feira. Vida boa não é? Só os asnos reclamam. Porque os asnos têm muita coisa pra fazer. Carregar cestos pesados, zurrar, galopar em semicolcheias, rir sem rir, feder e uma série de outras coisas infinitas no infinitivo.

Sim a vida é boa. Os pormenores que acontecem todos os dias são pormenores. Enquanto o percevejo não furar o nosso pé ele sempre será inofensivo. Sempre será percevejo. Porque as desgraças do mundo só são desgraças lá no mundo. Aqui em casa não acontecem desgraças. Se um dia surgirem por aqui aí sim serão desgraças. Assim como os percevejos.

Outubro poderia ser o mês das crianças. E já não é? Nossa Senhora Aparecida, Dia das Crianças, Dia das Bruxas, lançamentos da Rockstar Games, a união de Marina e Eduardo, a lua que está prestes a minguar e o Vasco, que mesmo ganhando perde. Diria que este é um mês infantil. Um mês importante, já que todos já foram infantes.

Comecei a estudar piano aos 8 anos de idade. Ouvi boa música quando era pequeno, mas não dei tanta importância a isso. Os Mamonas Assassinas marcaram a minha infância. Chico Buarque? Jamais. Ouvia e tocava música brega. De Sandro Lúcio à Waldick Soriano. Imitei Netinho, KLB e o que surgia na época. Mas parece que cresci. Agora tenho bigodes, um par de argolas nas orelhas e milhares de músicas chatas no celular. Músicas chatas.

Tudo que eu ouvi quando pequeno ficou guardado na cachimônia. 18 anos depois veio à tona. Demora mas chega. Eis o grande problema. Só se pode receber alguma “coisa” quando essa “coisa” já partiu de algum lugar. E quando nada parte de lugar algum? Nada chega? Chega nada?

Essas crianças que nasceram no ano 2000 correm o risco de não receberem encomendas. Ninguém posta nada pra elas.  Daqui a 18 anos nada virá à tona e a maratona estará fadada. Incrível como isso é clássico e verdadeiro. Boa parte da população, principalmente a mais carente, não tem acesso à boa música. Sim, também não tem boa água, casa, luz, comida, atenção… Mas a problemática aqui é música. As mazelas do mundo são mais conhecidas que Jesus de Nazaré.

A inclusão de música nas escolas virou lei federal há quase 6 anos. Faça uma breve pesquisa na sua cidade e saiba quantas já aderiram à lei, que tinha até 2011 para ser adaptada às escolas. Achou alguma? Pois é, eu também não. Quem sabe daqui a 18 anos venha à tona. Mas a questão não é essa. A criança brasileira que é pobre, marginalizada, excluída de qualquer humanização, não conhece a música chata. As ricas também não conhecem, enfim. Estes mini-homens ouvem, quando podem, o que há de pior na música. Os caras que produzem letras de merda, depreciativas, pornográficas e desgraçadas encontram alvos fáceis em terras virgens, férteis, e sedentas. Porque toda criança é sedenta. E o que estará no auge agora, virá à tona 18 anos depois. E daqui a 18 anos eu estarei na casa dos quarenta, observando de longe as encomendas chegando…

Outro dia uma criança me perguntou: Tio, o que é uma caixa oca? Na ocasião, estava dando uma aula de violão e explicava, momentos antes, que o violão é uma caixa de madeira acústica, oca. Tentei exemplificar, mas não consegui, por mais simples que pareça. E ficou aquele vazio na cabeça dela, na minha e no tempo. Minutos depois, comecei a dedilhar a música Aquarela. Outra aluna, naquela mesma aula, começou a chorar. Beliscão do colega? Dor de barriga? Saudades da mãe? Tédio? Não… Ela simplesmente estava, aos 8 anos de idade, emocionada por ter escutado aquela canção. Quem de vocês tem essa sensibilidade? Quem de vocês chora ao ouvir uma música clássica, histórica, densa… ? A menina não fazia a mínima ideia de quem fora Vinícius de Morais. Toquinho, para ela, é um pedaço de toco. O violão é uma caixa oca. Ela mal sabe ler, vive numa realidade inimaginável. Não se alimenta bem. As roupas são trapos. Cabelos assanhados. Cárie nos incisivos. Coração sensível…

Jamais vou me esquecer dessa cena. Na casa dela, possivelmente ninguém conhece nada de música. Na rua dela os refrões são bundinhas que descem até o chão e os monossíbalos, que são semelhantes aos zurros daqueles asnos que só reclamam da vida.

Daqui a 18 anos a encomenda vai chegar. Caixas ocas? Em todo o caso sim. Mas estaremos aqui reunidos como estavam em Jerusalém para esperarmos os frutos podres caírem das árvores que agora plantamos. A música salva. Porém, é besteira investir em educação musical. O pré-sal é mais importante porque gera renda, dinheiro, bufunfa, oncinha, mala, falcatrua, almoço em família no domingo, caríssimo por sinal, automóveis, putas de luxo, estádios, refrões monossilábicos, banhos quentes, pães com queijo, rodadas do brasileirão, facebook, hidratante de pele e a xerox. Para manter o sistema eles precisarão de infinitos asnos no infinitivo a zurrar e sorrir e zurrar e sorrir e zurrar e sorrir e zurrar…

Twitter @DiegoSchaun

Facebook facebook.com/DiegoSchaun

Quando a vida se torna um susto.


 

*Nota: Este texto é completamente egoísta.

Existe, por parte de certos adultos da classe média depressiva, muito rancor cultural. Chovem pessoas que adoram ouvir Chico Buarque e não conhecem três ou quatro canções do próprio. Todo mundo sabe de tudo, mas um tudo superficial. Ninguém se aprofunda. Ninguém mergulha. Ninguém bebe a água inteira. Ninguém…

E por que deveriam? Por que precisam saber de tudo? Quem provará? Quem virará a noite inteira interrogando os sabichões que nada sabem? Tenho medo de quem vive assim, temendo verdugos invisíveis.

Sou desses que deitam para dormir e demoram horas e horas supondo amanhãs. Quando é conveniente, ouço acordes diversos. De Suzanne Vega à Sivuca. Quando não existe música humana, ouço a noite. Planejo canções. Tracejo crônicas. Duvido das coisas que fiz. Relembro os amigos esquecidos. Esqueço os conhecidos. Rezo. Suspeito dos caras que acham que fazem o mundo e dominam subtítulos. Conto as respirações…

Algo me assusta há anos. Serei objetivo. A vida me assusta. Já não me preocupo com o que os outros pensam da vida. Gastei um tempo precioso com isso. Será que o azul que eu enxergo é o mesmo que eles enxergam? Será que ninguém se toca que a existência é algo totalmente incomum? Será que eles também não se perguntam: Por que estou aqui?

Sim, a vida me assusta. Assusta muito. Mais do que a altura da roda-gigante. Mais do que as pessoas que veneram o Chico Buarque. Mais do que a queda para a série B. Mais do que a rejeição de quem eu amo. Assusta muito! E às vezes eu até me sinto um idiota por pensar assim e saber que os outros pensam assim de mim. Por que você, que me lê agora, possivelmente está sem entender nada e me achando um idiota. Quem teria medo da vida? Eu. Pelo menos sou homem para dizer que tenho medo, e não dúvida, neste caso.

Quando abro os olhos, ao acordar, e me deparo num quarto, num corpo, num lugar, numa vida, sinto algo inominável. Eu estou vivo! Mas, eu sempre estive vivo. Sempre me lembrei de estar vivo. Não me lembro de ter morrido em algum momento. Essa é a especialidade da vida. Acostume-se a ela ou acostume-se a ela.

Não, não faço apologia ao suicídio. Suicidas são pessoas que não viveram. São humanos que tiraram a própria morte, que é própria de quem vive. É bom deixar isso claro, pois todo o resto do mundo defeca para mim e para as coisas que me assustam. Logo, o meu parecer sobre assuntos delicados pode se tornar mais delicado ainda em cabeças de ventos.

Esse susto de viver não é permanente. Aparece, como diria um amigo, um dia sim, um dia sim. Enquanto criam-se partidos novos, igrejas novas, santos novos, músicas novas, "novas" novas, me sinto um velho que tem medo da vida, e só dela. Não tenho medo de viver. Só de estar vivo. Assusta. Não te assusta respirar? Não te assusta acordar? Não te assusta suar? Cheirar? Compreender sons? Ter sentimentos? Não? Parabéns, você faz parte do mundo alheio. Ou eu.

Acertei na loteria e ganhei a vida de presente. Na real, sou como um novo rico que está em êxtase por receber milhões de reais, de uma só vez. Estou me acostumando a viver e isso vicia. Talvez, quando estiver mais velho (mais do que já sou) eu não me assuste com o que é tão ignóbil para todos. Tomara que não. Quero temer a vida como quem teme o abismo. De forma que eu esteja nela e ela em mim mantendo certa distância. Assim poderei olhar minha própria vida de longe, para saber por onde andei e quem andou comigo.

Pelo menos não sou membro da classe média depressiva que adora ouvir Chico Buarque e não conhece três ou quatro canções do próprio. Estes sim, acordam e não se assustam. 

Twitter @DiegoSchaun

Facebook facebook.com/DiegoSchaun

Ensaio sobre dúvidas, medos e unhas dos pés.


 

E do nada você percebe que as unhas dos pés estão enormes. Elas crescem assim, sem mais nem menos. Imperceptíveis até o primeiro incômodo. Depois de aparadas, o falso alívio é imediato. Meias, sapatos e passos. Ninguém se lembra das unhas cortadas. Ninguém. Elas não são notadas. Nem visíveis. Nem nada.

Mas elas continuam crescendo. Cada dia, um décimo de um milímetro. Um caminho contínuo. Invisível, até certo ponto. Todavia as unhas crescem e crescem sem motivo. Elas crescem como as interrogações que surgem dentro do peito diariamente. Faço ou não faço? É a pessoa certa? É a pessoa errada? É uma pessoa? Sou eu? Quem são estes que tanto me incomodam? Quem são estas unhas?

Existem dias, como hoje, em que os medos já não vingam. Só a dúvida. O medo trava. A dúvida paralisa momentaneamente. Esse é o insight. No dia que eu descobri que era melhor duvidar do que temer, um mundo novo surgiu. Dá para entender isso? Duvidar é melhor que temer!

Quando se tem medo de algo ou alguém, dá-se todo o crédito a este ser ou coisa. Se nós sentimos medo do bicho papão é porque estamos afirmando tenazmente que ele é superior, forte, capaz, ágil, enfim, poderoso. E quem é poderoso, é poderoso. É o melhor em tudo. Inclusive melhor do que nós.

Se, por acaso, escolheres duvidar do bicho papão, aí tudo muda. No primeiro ato da dúvida, a questão mais evidente a surgir é: Ele existe? Bem, se você cogita a não existência do bicho, pode ser que ele realmente não exista. Se ele não existe, não há o que temer. Se, ao contrário, ele realmente for um bicho bravo, outras questões surgem automaticamente: Por que ele é forte? Por que devo temer algo que é meio mito meio real? Por que ele é papão e não papinho? Já teve papeiras?

Calma que isso tudo é uma piada pequena. O exemplo não foi o melhor, muito menos a explicação. Como ando dormindo muito pouco, os neurônios não estão nessa coca-cola toda não. Com essa onda de ratos… Bem, isso faz sentido. Dúvida além do medo.

Se, por acaso, todas as teses caírem, é viável correr do bicho. Ninguém é da liga da justiça. Nem todos conseguem filosofar na hora do perigo. Digamos que essa tese da dúvida não seja totalmente segura em casos de perigo. Vejamos então num caso de paz.

Suponhamos que você acabou de acordar. Pássaros cantandos. Dia ensolarado. Fresco. Nem é cedo ou tarde. É manhã. A mais linda. Tudo está muito bem. Não deves a ninguém. Estás só ou acompanhado. Siga seu instinto de paz. Terias, pois, medo desta paz ou duvidaria dela?

A dúvida vai salvar de novo. Por que temer a paz se ela é o oposto do perigo? Logo, só resta duvidar. Uma manhã ensolarada é sinônima de paz? Pássaros cantando exalam alegria? Até quando? Em que momento? Pode ser que aquela seja a sua pior manhã. Puro azar. Mas azar não é lógico. Nem se cogita.

Duvide das manhãs. Não as tema. Duvide do monstro. Não o tema. Duvide dos outros. Não tenha medo deles. Duvide até de si mesmo. Não tenha medo de duvidar. Duvide até do medo. O medo é ruína. A dúvida é um muro alto que nos protege por algum tempo de certas verdades imperceptíveis até o primeiro incômodo. Quando o tempo chegar e o muro cair, irá perceber do nada que suas unhas dos pés estão enormes. Sem dúvidas. Sem medo. É de lei.

Por favor, não siga à risca. Faz mal.

Twitter @DiegoSchaun

Facebook facebook.com/DiegoSchaun

José Genoíno reconheceu a própria invalidez.


 

No auge da serenidade a gente emburrece. Faltando uma carta para montar a pirâmide tudo cai. Que vento do diabo! Na hora do beijo, o tão esperado beijo, o celular vibra. É última cena do filme e de repente a luz acaba… Será que nós, aqui, somos marionetes do acaso, mesmo sabendo que o acaso é burro? Não é justo. Alguém com algum tipo de poder quer nos ferrar. Só pode!

Todo mundo já passou por períodos de descrença. Mas toda descrença é passageira. Os que não acreditam em nada são infelizes. Logo, quando percebem que essa infelicidade não vem do Náutico ou do Vasco (que estão prestes a cair para a segundona) resolvem acreditar em alguma coisa. Essa efervescência, eu costumo chamar de fé.

Sim, sou um perfeito crente. Acredito em tudo, em todos e olha só, acredito em mim. Tenho fé na força do silêncio e na paz da euforia. Isso é próprio dos brasileiros. E creio piamente que tudo o que acontece nesta nação tem um leve empurrão da nossa fé. Os políticos dão prova disso. Só existe corrupto roubando no Congresso porque nós, os crentes, dissemos amém no final da doxologia.  

Possivelmente a nação se indignou com o pedido de aposentadoria (por invalidez) do senhor José Genoíno. Ele também é brasileiro. Ele também vota. Ele também crê. Ele também, também, também e também. Mas este pobre senhor também foi condenado. Dizem aí que ele roubou do seu bolso. Do meu também. Como disse acima, sou desses que acreditam, logo, cadeia já. Mas nós, crentes, gostamos da misericórdia. Porque é importante. Só por isso. Tanto faz se meu pai precisará trabalhar duzentos anos para se aposentar ou se meu tio, que não anda e é aclamado como inválido, não consegue se aposentar. Eles são exceções. Não ganham 26 mil reais por mês. Não são deputados. Não tem o costume de rezar. Não desviam verbas. Nunca tem dinheiro para comprar aviões. Compram qualquer pão em qualquer padaria. Bebem litrões aos domingos e votam nos mesmos caras depois das copas.

Quando li a notícia deste pedido de aposentadoria (que ainda será avaliado) me assustei e resolvi ficar indignado. Mas tenho boa memória e lembrei que toda vez que alguma desgraça acontece com a ética da nação, qualquer choro é alimento para o vazio. O vazio… Você conhece o vazio? Pois é. Ele é simplesmente o nosso dia a dia. Ótimo que existam pessoas que acreditam. Nós. Mas nós não somos nada, meus queridos. Nada vezes nada. No mundinho deles que dizem que é nosso, somos apenas moscas sem memória. Acordamos religiosamente para trabalhar zunindo e terminamos o dia quebrados, aptos para sentar no bolo ou na bosta.

A invalidez é outra questão que acima de tudo, é poética. O que seria um homem inválido? O que não consegue assinar com as próprias mãos? Aquele que não pode caminhar com as próprias pernas? Seria então um inválido o homem ou mulher que não é capaz de tomar as próprias decisões? É então inválido um trabalhador que não consegue alimentar três filhos com pelo menos duas refeições diárias? Bem, se tudo isso for invalidez, creio que somos um país de inválidos.

Mas nada disso vem ao caso. Podemos levar uma vida tranquila, se tivermos sorte. A vida se encarrega de propor os encontros essenciais. A vida se encarrega de criar as linguagens especiais para as pessoas especiais. A vida se encarrega de encarregar.

A maior especialidade dos crentes brasileiros é que eles sabem crer. Não desanimam. Basta assistir Dirty Dancing na sessão da tarde com alguém especial que tudo some. Tudo desaparece. A luz se apaga e a gente chega à beira do abismo para decidir entre o tudo e o nada.

É louvável que o Genoíno se aposente e ganhe seus vinte e tantos mil por mês. Não quero ser um bobo infeliz que vive a chorar por verbinhas e verbetes que trocam de lugar. Como meu armamento é de baixo calibre, não ousarei entrar nessa guerra. Que rezem os crentes. Que esqueçam os inválidos. Que se alegrem os bobos, mesmo que sejam dois.

Twitter @DiegoSchaun

Facebook facebook.com/DiegoSchaun