Os políticos não só precisam, como devem mentir.


 

Se eu fosse falar a verdade, acabaria morrendo com sobriedade. A verdade é um vício dúbio. Liberta, mas aprisiona tristezas. Fugir de tudo o que se sabe sobre verdades e mentiras é a opção mais apresentável, por ora.

Quando alguém mente, somente mente. A riminha é bonita e verdadeira. Mentir é como escapar de uma solidão. Mentir é como viver no rancor gélido de uma fera, que só sabe que é fera porque acreditou em nosso exemplo de feiura. Em nossa mentira.

Veja só (ou com alguém). Nada surge do acaso. As pessoas precisam ganhar as coisas. Precisam viver com estas coisas. Sabem que vão morrer por estas coisas. E morrem deixando estas coisas. Estas coisas são todas as coisas que existem.

Enquanto o povo vibra com a Copa do Mundo (por que escrevi isto com letras maiúsculas?), os candidatos fazem suas alianças e compram milhares de lotes de munição. A imprensa divulga todos os dias os novos aliados, as chapas compostas e as cabeças em degola. Ah, mas quem quer saber disso? O importante é a escalação da seleção da Colômbia. Bah!

Em breve, mentiras de todos os calibres serão disparadas pelas bocas cilíndricas, cheias de sorriso. E todos riem. E todos mentem. E a gente mente, dizendo que eles são mentirosos. E eles acreditam em nosso silêncio, porque sabem que silêncio é consentimento, ausência de som, botão verde e todas estas coisas que são todas as coisas que existem.

Eleição, campanhas, propostas… Tudo isso é muito chato. Chato mesmo. Qualquer mentiroso em sã consciência prefere ler quadrinhos da Turma da Mônica a mirar as análises políticas e sociológicas dos jornalões comprados. A gente sabe o que está por trás de tudo isso.

Só que os políticos precisam mentir. Da mesma forma que todos precisam mentir. Ninguém quer dizer que o colega de trabalho está ridículo com aquela camiseta amarela e azul, típica de um pirata do extinto PFL. Ninguém quer comentar que aquele líder da igreja é efeminado. Ninguém quer falar que viu o vereador recebendo propina. Ou seja, a gente precisa mentir! Então, por que eles não? Ora, os políticos são gente como a gente!

Os Aécios e as Dilmas por aí precisam comer (amido amassado pelo anjo de luz). Geralmente, os políticos não sabem dirigir com esmero. A maioria não conhece de música. Pouquíssimos jogam futebol. Um ou outro sabe persuadir, digo, orar (orar de orador e não orar de rezador já que estes abundam nas câmaras legislativas).

Os políticos não sabem usar armas. Não sabem vender farinha na feira. Não sabem fazer picolé. Não sabem engraxar sapatos. Não sabem costurar. Não sabem tocar a boiada para pastar na manga. Não sabem quem foi Priscila, a rainha do deserto. Não sabem suturar talhos. Não sabem quase nada. Que mintam, pelo menos. É uma forma simples e não-violenta de conseguir algum trabalho.

De que adianta, por exemplo, o Lula aparecer na TV e confessar que seus parceiros de dama são culpados de corrupção? Nada. No outro dia todos esquecerão porque as verdades sempre são esquecidas. Goebbels dizia que é mais fácil as pessoas acreditarem numa grande mentira dita muitas vezes do que numa pequena verdade dita apenas uma vez. Ou você acha que o Lula faria sete vídeos confessando que seus correligionários passaram a mão no imposto suado que a gente paga? Nada com coisa nenhuma.

Outro dia um angolano afirmou que o problema do Brasil são os brasileiros. Ele mentiu, sabia? Mentiu porque falou a verdade. E falar a verdade é como mentir. A gente diz e ninguém acredita, porque é mentira. Não, eu não fumei maconha nem bebi Dolly.

Quando a copa acabar, a politicagem vai começar. Então, prepare seus bonés vermelhos ou suas camisas de manga longa, cor sim, cor não, e acompanhe o candidato ao governo do estado, quando este passar por sua rua em cima de uma caminhonete. Acene. Dê a mão. Acredite que ele realmente irá construir 6 mil hospitais em Janeiro de 2015. Porque ele vai sim! Vai fazer porque é mentira. Por isso é verdade.

No final todos morrerão deixando tudo por aí. Todos mentirosos. Todos felizes. Todos de mentira. Deixar as coisas como estão é o gesto mais sábio. Tão real que chega a ser mentira. Porque dizer que adorou a jaqueta couro de onça ridícula (que ganhou de presente) é a mesma coisa que prometer cuidar do povo pobre e no dia primeiro de janeiro do ano seguinte cuidar do laquê! E só do laquê! 

Se Cazuza fosse vivo, cantaria assim: "Hipocrisia, eu quero uma pra viver". Por isso já escolhi a minha hipocrisia. Prometo mentir enquanto mentirem. Eles vão dizer que está tudo bem e eu acreditarei. Eles vão dizer que estou morto e eu morrerei. Eles vão dizer que estou vivo, e eu direi um piedoso amém. Partiu Neymar. Passou por dois. Lançou pro Marcelo. Vai Marcelo! Ele chuta e… Goooooooool! Contra?

 

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Sobre as pessoas que vivem dos sucessos momentâneos.


 

Boa parte das pessoas que fazem o mundo ser o mundo não tem a menor noção de que fazem algo importantíssimo. E isso é muito bom. Porque todo mundo muda a estratégia do jogo quando acha que vai perder. Todo mundo muda quando acha que vai perder.

Algum espertinho implantou na cabeça de alguns bobões a ideia da vitória. Ganhar ou ganhar. E essa meta de vida fajuta encontrou terreno fértil em mentes pedregosas, áridas de saber e pobres de caráter. O mundo pede a vitória individual. O sucesso. O sucesso absoluto. O sucesso do momento.

E qual é o sucesso do momento? Lepo lepo ou a banana do Daniel Alves? Os dois. E a carência midiática é tão grande que novecentas mil crônicas, reclamações e textos foram escritos sobre o ato de racismo contra o jogador brasileiro ou a crítica social da música Lepo lepo. A questão é: Por que as pessoas só falam das mesmas coisas sempre?

Tudo funciona de forma mecânica, no mundo. E a pobreza cultural vem se alastrando diariamente. Muita gente ainda morre de fome. E muita gente ainda morre por falta de cultura e continua vivo, mesmo morto.

Ora, o conformismo destrói os neurônios das bestas. Gostaria de saber de que forma viveria a mídia se o mundo fosse um marasmo. Se não existisse assunto. Se não existisse nada. Se dia após dia o sol só nascesse. Como a mídia viveria? Possivelmente bem. Porque até na ausência de um deus o homem o fabricaria.

As pessoas, principalmente as crianças e jovens, absorvem essas ninharias musicais que surgem de tempos em tempos com uma facilidade assustadora. Sabe-se que o Governo Federal obriga os professores a aprovarem alunos analfabetos. O Brasil precisa mostrar números bons na educação, para não ficar atrás de Serra Leoa ou Butão.

Lepo lepo entra na cabeça como um número bom. As piadinhas de macaco também. Quanto tempo durará essa “canção”? Quantos dias a tag #todossomosmacacos ficará entre os tópicos mais comentados das redes sociais? Sim, poucas semanas. E isso é grave. Mas é a salvação. Será que as pessoas não percebem que são manipuladas por uma mão invisível chamada “bestialidade”? Muitas questões. Muitas.

Vestir o que dita a música. Dançar a dança do momento. Comentar sobre o que todos estão comentando. Cadê a graça de ser original? Onde ficou o tesão do ineditismo? Ninguém deseja uma juventude que apenas leia clássicos romanos e ouça Chopin. Basta ouvir e ler. E isso já é muito.

Esta questão resume tudo: Será que eles não se incomodam em viver uma vida de momentos? Não. Eles não se incomodam. Elevam as sandices aos altares da glória e depois enterram os heróis em covas fundas. Os que agora falam de bananas e ouvem Lepo lepo (nada contra a canção, muito menos ao Psirico e seu cantor Marcio Victor, um excelente percussionista, diga-se) esquecerão da música em poucos dias. As bananas também irão apodrecer no cacho. E isso será tido como normal. Pois é comum ignorar a joia rara obsoleta quando esta se torna obsoleta.

Por isso que essas pessoas, as que realmente fazem o mundo acontecer como mundo cão, consumista, vitorioso e momentâneo, não devem saber que são tão responsáveis assim. A não ser que sintam que estão perdendo o jogo. Poderão, neste caso, modificar a estratégia para ganhar a partida e enfim perdê-la. Porque é na derrota dos alheios que acontece a apoteose dos sérios desiludidos. Mas isso só acontece de momentos em momentos. E agora não é o momento. Por enquanto eu já não sei o que fazer. Se eu sou o macaco ou vossa mercê.

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Bandidos continuam matando e a gente acha tudo lindo.


 

Palavras são como bolhas de sabão. Colorem quando os olhos lhes atribuem cor, voam para onde o vento levar e desaparecem antes de chegarem. Palavras são como pessoas, só que melhoradas. Podemos ser coloridos ou cinzas, só para andarmos em qualquer direção com o intuito de chegar a lugar nenhum.

Cada um escolhe uma meta de vida. Muitos cuidam de lepidópteros. Outros escrevem livros. Poucos leem.  Alguns rezam. Dezenas se matam. E eu tento explicar a maldade do homem.

Sim, o problema é meu. Inclusive essa mania de responder possíveis indagações que você, leitor, possa fazer. É mania mesmo. Saber que a minha busca é um tanto absurda, faz com que o meu real objetivo tenha veracidade. Porque neste mundo, tudo que é inédito e burro se autoexplica.

Outro dia aconteceu mais um assalto a uma casa lotérica. Um trabalhador, de 28 anos, que apenas fazia seu ofício, foi morto por nada. Os bandidos não conseguiram roubar o dinheiro já que a porta era blindada. E, claro, por frustração, atiraram num trabalhador que apenas limpava o chão. O rapaz era um pai de família. Mais duas crianças crescerão sem o pai.

O Brasil inteiro soube deste caso.  Soube, mas já esqueceu. Porque ser morto por bandidos neste país é o mesmo que abrir uma lata de cerveja. São tantas, toda hora, que as latas vazias apenas ficam vazias por breves minutos.  Daqui a pouco serão achatadas por algum catador.

Um tanto idiota, entretanto não há como fugir da vontade de escrever esta pergunta: O que leva um bandido a atirar em alguém para descontar a raiva? Esqueça a sociologia enumerando estatísticas. Esqueça a antropologia falando de miscigenação. Esqueça o IBGE falando do governo Collor. Esqueça tudo e tente responder em poucas palavras: O que leva um bandido a atirar em alguém só pela vontade de atirar?

Ainda não tenho a resposta. Por certo encontrarei algum dia. Porque sou desses que gostam de desmontar relógios para ver a engrenagem rolando em loop. Enquanto uns colecionam lepidópteros eu coleciono dúvidas. A certeza limita.

Eu poderia ficar quieto, lendo alguma biografia, ouvindo ao fundo Richard Clayderman tocando pela enésima vez Ballade pour Adeline. Eu poderia ficar quieto.

Por enquanto, a explicação mais convincente é a da genética. Alguns nascem maldosos. Com instinto de matar. Na infância matarão lagartixas. Na adolescência matarão inocentes. Na cadeia, se matarão. Convincente, não?

Até porque hoje é sexta-feira santa. Jesus na sessão da tarde. Festinha para os romanos incrédulos. Resquício de eclipse. Véspera das guloseimas. E ninguém mais se recorda do trabalhador de 28 anos que foi covardemente assassinado por moleques.

Podem ir para a praia e dançar das coreografias do beijinho no ombro. Leiam a Veja deste mês. Visitem as paridas. Façam canções. Revelem os segredos. Desenhem linhas cardioides. Eu fico com essa parte chata de soluçar soluções indissolúveis.

Chega de esquecer os assassinatos de ontem. Chega. Existe algo de errado e eu quero saber.

 

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A censura ainda existe. Só mudou de dono.


 

Rios caudalosos nem sempre desaguam no mar. Talvez os mares não gostem de alguns rios. Deve ser isso. Os mares escolhem o tipo de sangue que receberão na transfusão. Os mares não precisam de rios caudalosos. Os mares não precisam de sangue. Os mares são nossas utopias. Somos eternos Nilos sonhando com o Delta. A gente sonha com o mar, mas ele não liga pra gente.

Não, caro leitor. Eu não fumei maconha. Mas seria muito bom se a gente pudesse driblar a cara de pau dos zagueiros politicamente corretos. Porque hoje em dia ninguém pede ajuda ao bom senso. Tudo tem que ser medido da forma correta. As pessoas não podem falar suas opiniões, preconceituosas ou não. As opiniões são só ideias. E elas ferem como faca. Ferem como qualquer coisa aparentemente letal.

Por obra do destino eu não vivi os anos 1970. Na época em que a ditadura militar censurava músicas do Chico, poemas do Gullar e rebeldias dos roqueiros, os rios caudalosos já sonhavam em cair dentro do mar. Ninguém podia dizer o que queria. As opiniões feriam como faca. Uma letra fora do lugar era o motivo de mudar de lugar. Daqui para o lado de lá.

Ora, isso é só um passadinho bonito, que rouba uma página de qualquer livro didático de história. Vivemos, graças a Deus, num país onde qualquer um pode falar que o presidente é beberrão e que o funk é uma porcaria. Os homofóbicos podem ter nojo dos homossexuais, e vice-versa, e os evangélicos podem cuspir no papa. Uh, que beleza! Beleza o caramba!

Existe uma burguesia metida a intelectual por aí que desaprova qualquer opinião que não esteja nos padrões. As pessoas só podem exibir seus juízos da boca para dentro. Falar publicamente o que pensa é motivo de cadeia. Se eu começar a escrever tudo o que eu penso aqui, senhoras e senhores, estarei lascado. Serei taxado de comunista, fascista, homofóbico, heterofóbico, judeu, vascaíno… Porque julgar é verbo intransitivo e intransigente. Um cromossomo popular.

Um assunto que incomoda muita gente é a homossexualidade. Falar desse assunto é como caminhar em campos minados. Qualquer palavra ambígua e boom! Daí quem não tiver preconceito passa a ter e o certo vira duvidoso.

Quando a gente lê sobre a história do século XX e relembra de Lênin, Stálin, Hitler, Mussolini, Franco, Médici, Malcolm X, Martin Luther King, Gandhi, Mao, Nixon, Castro, Che, Pinochet, Lula e Mandela, fica claríssimo que viver em 2014 é bem melhor do que ter vivido em 1944, por exemplo. Mas só parece.

De que adianta ter uma liberdade vigiada, insanamente, por pessoas que são poços de incongruências? Parece baboseira, mas não é. Afirmamos que somos inteligentes, democráticos e racionais. Claro, isso até alguém pisar em nosso calo. Se você, meu caro, detesta alguma coisa ou não concorda comigo, guarde para si. Posso enviar agentes secretos na sua casa e fazer uma fuzarca. Só que não.

A censura simplesmente mudou de nome. Aliás, mudou de dono. Antes era do governo. Agora é regida pelo imaginário popular da burguesia metida a intelectual. Essa burguesia é composta de esquerdistas frustrados, ex-religiosos, alguns professores que latem, mas não mordem nem queijo, jornalistas bem pagos para ressaltar que a bucha de sena é também chamada de carreirão e uma galerinha que se espanta ao saber que Gandhi tinha um namorado alemão malhadão.

Que liberdade é essa, minha gente? Quer dizer que o que a gente pensa só pode ser proferido se estiver de acordo com as normas da ABNT? Tenho medo desses que se dizem “paz e amor” o tempo todo. São eles que nos impedem de pensar, pois querem ser os patronos da imunização racional (mas no fundo estão com medo). No passado já calaram nossa voz. No futuro calarão nosso silêncio. Afinal, os inertes podem ser subversivos. Já são. Somos. 

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Escritores de autoajuda só se ajudam. Ou nem isso.


 

Essa poderia ser uma tentativa falida de escrever sobre a vontade quase módica, “quasimódica”, de ser gente. Uma pena, porque eu sei, evidentemente, que a falência faliu e o objetivo será dito no final. A tristeza é uma fonte inesgotável de renda.

Possivelmente, se o mundo vivesse de tristeza, todos seriam felizes. Até porque a existência da tristeza é a comprovação da existência da felicidade. Opostos se autoafirmam. Se ainda existem ruminações, ronronares capciosos em dias tristes de chuva e lágrimas frias, sinal de que está tudo bem e que o mundo não vai acabar.

Pessoas tristes rendem dinheiro. Milhares de Curys, Chalitas e Melos vendem manuais do bem-viver porque eles só conseguem viver assim. Outro dia, estava lendo uma matéria relacionada à profissão de “implantador de cabelos”. Existe um profissional brasileiro que está riquíssimo fazendo tal tarefa. Ele é o Abraão do implante capilar. Trata da cabeça de diversos empresários brasileiros e de mensaleiros no cárcere. Enricou. Especializou-se numa raridade.

Como a depressão e a tristeza vivem em eterno gozo dentro de nossos lares, a resposta não seria outra. Autoajuda! Livros com histórias e frases enfáticas, de linguagem fácil para mentes fáceis, por falta de alternativas genéricas.

Não, caro leitor. Eu não estou a criticar os tristes que leem, nem os tristes que escrevem. Jamais apontarei para o espelho, já que também tenho um tiquinho de tristeza e não leio autoajuda para me desgraçar um pouco menos. Que escrevam, que leiam. Que se curem lendo Cury. Chega de pseudo-intelectuais que criticam os braços e a seringas. Os médicos e os doentes.

Meu único objetivo aqui é lavrar a doença em contrapartida do seu fim. Deve haver algum motivo para tanta depressão. Ou não. Talvez as pessoas sempre estiveram na ausência do bem-estar. O boom da comunicação fez a tristeza cruzar os oceanos com mais facilidade. O suicídio é antigo, desde os tempos dos mongóis e nipônicos contemporâneos de Confúcio. As perdas por qualquer motivo banal eram corriqueiras. Tristes, por assim dizer.

Novamente ressalto que não estou aqui para analisar a causa do sofrimento permanente ou das pílulas catalisadoras em forma de livros. Somos grandinhos e a gente sabe o que acontece se engolir uma bala ou se ouvir o Justin Bieber. Somos racionais. Evoluídos. Bem superiores aos cavalos. Afinal, deificamos a felicidade a cada menção de depressão. Se os bichos ficam tristes, essa tristeza é mais relevante que a nossa, já que cavalos não sabem ler.

Os humanos tristes têm a grande capacidade de usarem esse presente da natureza (a tristeza) como fonte de renda. Ganhar dinheiro escrevendo coisas que mexem com o potencial de restauração dos outros é uma grande sacada. Por isso o ser humano é genial. Mesmo na aceitação da imperfeição e das limitações, ele ainda consegue “tentar” ajudar o outro escrevendo alguma coisa, que nem para ele servirá. Genial. Genial!

Gostaria de saber o que passa na cabeça de um escritor que lança livros do tipo: “Saiba como ficar rico e deixar de vez o marasmo da vida!”. Será que ele está em casa, e de repente, assim do nada, dá um salto e diz: Vou escrever um guia prático, elucidando causas e pontos positivos sobre isso e aquilo…! Será?

Juro que eu queria ser assim. Adoraria levantar da cama, logo cedo, sentar à frente do computador e escrever mapas da mina. Infelizmente não consegui ainda. E agradeço por isso. Não tenho essa audácia de querer ajudar os outros disfarçando minha ditadura de “autoajuda”. Se já é auto então sou eu. São eles, por eles mesmos. Elas, por elas mesmas. Um pensamento um tanto egoísta, mas jamais, vejam só leitores, jamais mentiroso.

Leiam à vontade. Curem-se. Isso que importa. Já que não quero ser um Paulo Coelho fajuto ou um Bidu milionário, permanecerei no silêncio da observação, a esgueirar-me das soluções fácies e das soluções químicas.

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Os médicos cubanos são mais humanos.


 

A barriga ronca de fome. E esse roncar é alto. Silvado. Sonoro. Nítido. Incômodo… A coriza é forte. Escorre pelo buço. Fede. Mela. Seca e vira creca… A febre queima. Treme. Punge. Delira. Sua.

Os sintomas são claros em todos os sentidos. Todos nós sabemos como é ficar doente. E a doença é a maior prova da fraqueza humana. Quando a mobilidade cotidiana é testada, os homens se sentem merdinhas que vivem. Um horror. De repente o super-herói se torna vítima de si mesmo.

A sociedade é regida, inteligentemente, por seres inteligentes. Sim, a redundância foi proposital. Hierarquizar pessoas é uma forma bonita de dizer quem manda num mundo onde a obediência é tida como virtude. Uma virtude um tanto católica, no sentido literal da palavra, e católica, no sentido coloquial da palavra.

Não entendo de políticas públicas, nem de programas salutares que o governo promete para o povo. Não conheço nada de quiromancia nem vou à igrejas todos os domingos. Mas fico doente como todos vocês.

Outro dia um amigo ficou enfermo. Fiquei sabendo dias depois. O próprio fora examinado pelo médico cubano que chegou na minha cidade. Moro, atualmente, no extremo sul da Bahia, numa pequena cidade chamada Camacã. Um médico cubano chegou por aqui recentemente, através do programa Mais Médicos. E em pouco tempo ele vem dando o que falar.

Este meu amigo (que adoeceu) contou-me que a consulta com o tal médico foi muito boa. Disse ainda que “durou mais de vinte minutos e que se sentiu gente”. Fiquei estupefato com aquilo porque tentei entender a semântica, quase romântica, apesar da rima desgraçada, do fato. Não me lembro da última vez em que eu me senti gente, até porque nunca pensei em alguma possibilidade de não ser gente. Sempre me senti “gente” e chato.

Soube que os cubanos não ganham lá essas coisas. Não me dei o trabalho de pesquisar sobre a veracidade do fato porque isso não me importa e meu texto não é notícia. Prefiro acreditar que eles ganham pouco mesmo. E outra, muitas pessoas já comentaram comigo à respeito da cordialidade dos médicos cubanos. Todos são assim? Sabe Deus. Porém, é notório que todo comentário tem um fundamento real.

Aqui na minha cidade, todos os doentes passam mais de vinte minutos no consultório do cubano. Qualquer febre ou tosse é motivo de exímia análise do jovem médico. O normal seria esperar o dia inteiro num posto fedido e mal ventilado para entrar num consultório fedido e mal ventilado e ser atendido por um ser fedido e mal ventilado que num piscar receitaria qualquer remédio fedido e mal ventilado.

As pessoas tendem a se acostumarem com desgraças. O homem se sobressai perante as outras espécies porque consegue se adaptar ao meio. Genial e cruel. Ao mesmo tempo em que somos racionais, somos idiotas. Porque a gente entende tudo, mas não entende nada. De que adianta andar ereto e criar o touch screen se na hora H o rabo fica entre as pernas e a dipirona entre os dentes?

Será que os médicos brasileiros que atendem pelo SUS são tão geniais que adivinham os diagnósticos dos pacientes sem qualquer exame prévio? Será que o cubano só quer aparecer, mostrando que está preocupado com cada ser individualmente? Mas essa não é a obrigação daqueles que na formatura leem o discurso de Hipócrates? Muitas questões.

Resta-nos uma certeza. Os cubanos estão fazendo a diferença utilizando as mesmas armas e atendendo nos mesmos postos de saúde fedidos e mal ventilados. Estão ganhando menos e curando mais. O que há de errado com os médicos brasileiros? O que há de errado com os brasileiros?

Nós somos o problema do Brasil. Alguém de fora tem que desvendar os valores de X e de Y que trucidam nossa caminhada rumo ao sonho de sermos gente. Por enquanto são cubanos. No futuro, marcianos. 

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Roberto Carlos não perdeu a majestade por ter cantado com Anitta.


 

Seria egoísmo demais falar que só existe música boa no meu pen drive? Seria. Mas o egoísmo entre nós, humanos, é tão natural que periga ser virtude. De qualquer forma, seria puro egoísmo afirmar que no meu pen drive estão as melhores canções. Bem, já que a nata da boa música não está comigo, onde estaria então? No seu pen drive? Na playlist da Joven Pan? No escritório trancado e mofado do Belchior? Onde?

Ligue não. A gente não sabe mesmo onde estão elas, as boas canções. Por isso que os ruídos momentâneos usurpam nosso bom gosto até ficarmos egoístas, ao ponto de dizer que só existe música boa em nosso pen drive.

Muitas pessoas criticaram a participação da cantora Anitta, (a sensação de 2013 com sua única canção de sucesso Show das Poderosas) no show do Roberto Carlos, em Dezembro do ano passado na Globo. Todos sabem que o Roberto faz um show anual no final do ano na TV Globo. E nos últimos 40 anos, diversos artistas do momento cantaram com o rei.

Todas as pessoas de bom coração e bons ouvidos, (ou não) sabem da importância que o Roberto Carlos tem para com a cultura brasileira. Suas canções embalaram romances, filmes, novelas, ideias… Ele é uma lenda nacional e merece ser reverenciado como um dos maiores compositores do mundo.

A Anitta surgiu de repente. Sim, ela tem uma voz meio nasal. Sim, ela só tem uma canção. Porém, se voltarmos no tempo, quantos cantores ou bandas, que só fizeram sucesso por pouco tempo com uma canção, já cantaram com o Rei? Sim, vários, amigos e amigas. Vocês lembram bem!

Roberto é como se fosse um patrimônio nacional. Todos os brasileiros o conhecem ou sabem alguma canção dele. Ele sempre demonstrou ser um homem de paz, com bom caráter, original. Roberto Carlos é perpendicular. É rei. E o rei tem que ser justo e estar com todos.

Teoria meio besta, essa minha. Já que ele é rei, então, cante com qualquer um. Clássico bestial. Na verdade esse é o pensamento mesmo. Não que Anitta seja qualquer uma. Não aprecio a música que ela faz, mas não posso dizer que, pelo fato de O Show das poderosas não estar no meu pen drive, a música dela é ruim. Posso até dizer que é ruim, porém, é a minha opinião. E as leis que crio só eu posso seguir.

No final deste ano, Roberto Carlos fará mais um show de fim de ano na Globo. Daqui pra lá surgirão outros cantores e cantoras do momento. Um deles estará no palco cantando com ele. E criticarão de novo, dizendo que ele foi vendido para a Globo. Minha gente, isso já tem 40 anos. Se ele foi realmente vendido a Globo, possivelmente foi pago em Cruzeiros.

E outra, a Anitta não cantou tão mal assim. Já vi macacos velhos passando vergonha no palco. Alguém falou? Não, porque é politicamente correto ficar quieto quando se descobre que o mito nem sempre tem fundamento.

Fico a imaginar a seguinte cena: Rei, tu aceitarias cantar com a Anitta? Roberto: Não. Jamais. O que a sociedade iria falar? Que ele não era humilde. Que gente pior já tinha dividido o palco com ele, enfim. Uma minoria metida a intelectual iria dizer que ele tem todo o direito de cantar com quem ele quiser e que a Anitta poderia manchar a carreira dele. Ainda bem que essa minoria não fede nem cheira. Conhecem um bocadinho de Chico, Baden, João Gilberto e Hermeto Pascoal e se acham espermatozoides do Nelson Motta. Coitados…

Seria egoísmo demais falar que o Roberto Carlos não poderia cantar com a Anitta? Seria. Mas o egoísmo entre nós, humanos, é tão natural que periga ser virtude. O Roberto Carlos não deixou de ser o Rei por ter dividido o palco com uma coqueluche musical. Chega a ser ridículo a humilhação que fazem com a pobre da Anitta. Calma aí, gente. Eu não curto a música que ela faz. E isso não é orgulho. É gosto. Aprendi a ouvir boas canções e guardá-las no pen drive. Sei separar o joio do trigo. Acho que vocês também sabem, queridos. Só acho.

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